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O Chico-Esperto social

Ao longo da vida tenho tido o (des)gosto de me cruzar com toda a espécie de chicos- espertos. Apesar de lhes devotar um profundo e esmagador desprezo, sempre os suportei. Tive em consideração o que sociólogos e investigadores, como o catedrático José Gil defendem sobre o chico-espertismo: apesar de ser uma característica bem portuguesa, ela é evidente ao longo da nossa história: mesmo Lenine na sua crueldade classificava “chico-espertismo” como o oportunismo do pequeno-burguês.

 

Importarmos o chico-espertismo burguês até poderia ser considerado positivo, fosse ele fosse sinónimo de desenrascanço altruísta, mas não é. Atualmente Chico-esperto não tem hora para se fazer anunciar, género ou cultura. Simplesmente convive diariamente ao nosso lado. Silencioso, à espera da oportunidade certa para se desenrascar sim, mas à nossa custa!

 

Apesar de traduzida numa espécie de oportunismo, com obscuros contornos morais, sempre pensei que existissem áreas sagradas, onde a consciência moral destes “Chicos” e “Chicas”, fosse de alguma forma ativada, respeitando assim valores de cidadania e solidariedade, como é o caso da área social, mas não, esta nova espécie rapidamente percebe que a área social é um tereno fértil que serve de trampolim para outros interesses (seus evidentemente!).

 

O “chico-esperto social” é assim aquele individuo, meio homem (ou mulher) meio vampiro, que suga sub-repticiamente aqui e ali, para levar para além e acolá, retirando evidentes benefícios ou a vantagens pessoais, mesmo em prejuízo de outros. O chico-esperto abdica de valores, tais como a honestidade intelectual, a ética ou o respeito pelo outro, para ter uma vida confortável. Na cabeça do chico-esperto impera a lei da selva para se ser bem-sucedido! Opções de vida pouco éticas com as quais me recuso a compactuar.

 

Entre a corrida perfídia e desenfreada para o sucesso e a caminhada compassada, mas digna e humanizada, prefiro a última. Até porque também prefiro gente nobre, que convive na honestidade. Como sempre ouvi dizer que espertos são os cães, sem desprestígio para o fiel amigo do homem, convidam-se os praticantes do chico-espertismo a começar a agir como eles: mesmo os cães famintos sabem que não é boa ideia morder a mão que os alimenta.

Kiss, kiss!

Bang, bang!

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Portugal tem tanta trampa quanta trampa o Trump tem

Talvez muitos não esperassem que, de um país, supostamente dos mais desenvolvidos do mundo, surgisse um candidato presidencial com uma visão tão inqualificável sobre a sociedade, em geral e sobre questões étnicas e de género, em particular. Presunçosamente pretende combater o fundamentalismo islâmico, construindo muros para separar etnias, atentando às liberdades individuais e lançando verdadeiros ataques personificados contra mulheres, culturas e todos aqueles que fogem à matriz cultural tipicamente norte-americana WASP (White, Anglo-Saxon & Protestant). Quando ouvimos o seu discurso não conseguimos perceber com clareza quem é afinal o mais terrorista.

O mais intrigante, se não fosse deprimente, é que assistimos a milhões de apoiantes deste discurso, o que revela que a mentalidade à la homem das cavernas continua mais disseminada pelo mundo do que seria de esperar, mesmo em países que tendemos a classificar como “civilizados”.

Desengane-se quem pensar que em Portugal se está imune a esta epidemia, se é que o nosso país não é por si só, um paraíso para este baluarte machista. O machismo intrínseco à nossa sociedade é por vezes mais perigoso, pelo fato de estar tão enraizado que nos habituamos a ver como normal, nas múltiplas formas que toma. Pactuamos com esta mentalidade cada vez que nos rimos de uma piada, desvalorizamos um comentário ou o replicamos passivamente.

Quem não se riu já de piadas sobre “loiras burras”, “ciganos”, “gays”, “pretos” ou “deficientes”? Quem não calou já comentários castradores sobre qualquer uma destas pessoas, nas mais diversas situações? Quem não assistiu já a olhares de desconfiança em relação à ascensão de mulheres a cargos de poder?  Ou foi conivente com comentários de que o seu melhor lugar é na cozinha e que deve ser, antes de mais, submissa?

Infelizmente não faltam exemplos desta trampice na nossa sociedade, e não, não saem das bocas dos trolhas no cimo do seu andaime. Outros e outras comentam do alto do seu espaço de opinião, em situação bastante confortável e semelhante ao candidato norte-americano que, mesmo de longe, finge chocar homens e mulheres que convivem bem e são até coniventes  com este tipo de mentalidade.

Quem conhece bem a nossa cultura sabe o quão está implantada a mesma atitude tacanha que nos causa tanta estranheza lá fora, e à qual, ao mesmo tempo, estamos tão habituados cá dentro. Por isso, comparações à parte, o tempo tem-nos vindo a mostrar que, mais coisa menos coisa, Portugal tem tanta trampa quanta trampa o Trump tem.

Kiss, kiss! Bang, Bang!

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Vais ser pai?! Bom, também já não é sem tempo. Já estás a ficar velho…

Bom, voltando à tal história…, talvez tenha início no dia em que eu e a Zi,  mulher sexy e resmungona com quem vivo há já alguns anos, em pecado, segundo repreende a sogra (e umas quantas almas penadas que parecem ansiosas por ir a uma boda), fomos visitar os meus compadres São e Delfim, que são meus compadres porque quase no final da adolescência da São (o Delfim já era macaco velho e tinha mais horas de voo do que o capitão de um Airbus) andaram na malandragem nas muralhas do castelo de Bragança e quando o fruto da brincadeira nasceu, tiveram o bom senso de me convidar para padrinho da criatura.

Mas como dizia, no dia em que os fomos visitar, a Zi estava um pouco enjoada, e mal chegou à cozinha começou a torcer o nariz dizendo que não aguentava o cheiro e que havia já alguns dias que o cheiro da comida a incomodava… que já não aguentava o fumo do cigarro… e que tinha que ir ao médico ver o que se passava.

A nossa amiga São com a apurada diplomacia que a caracteriza exclamou “Ó rapariga, tu estás grávida!”

Mas se isso é o início da história, então falta o prólogo. E o prólogo tem de ser aquela noite no final de Agosto, em que voltei de Portugal após umas semanas de férias, e como o nosso apartamento estava em obras, eu e a Zi ficámos em casa da mãe dela. Então não é que nessa noite fizemos os possíveis por destruir a cama alheia, abanando-a freneticamente até cerca das 3 da manhã?!

As culpas de tão intensa actividade devem ser atribuídas ao jejum do mês de Agosto e em igual medida à pólvora diabólica que prepara a mãe dela, pois se o piri-piri normal é afrodisíaco, a mistela que ela prepara deve ser viagra concentrado, e dá a sensação que é administrado com lança-chamas.

A verdade é que a possibilidade de a gravidez estar na origem da alergia aos cheiros que se vinha manifestando nos últimos dias, já me tinha passado pela cabeça, mas fora imediatamente afastada porque na minha opinião (e na de muitos outros ingénuos) essas coisas devem ser cuidadosamente planeadas e os nossos planos eram bem claros; depois de ela terminar a universidade, coisa que acontecera apenas alguns meses atrás (ainda nem sabia a data da cerimónia de entrega dos diplomas), teria de mudar de emprego e trabalhar full-time. Depois sim, podíamos pensar na descendência, ou como diz o meu amigo Bubbly “parar de disparar cartuchos de pólvora seca”.

Na viagem de regresso a casa decidimos que as dúvidas tinham de ser dissipadas e os motivos da alergia aos cheiros, esclarecidos. Isso implicava adicionar à lista das compras do dia seguinte, um desses estojos modernos de análise à urina e resultados instantâneos.

A variedade (e a falta de experiência) era tal que foi preciso cerca de meia hora para escolher aquele que ia ter o duvidoso privilégio de ser banhado na urina de uma pessoa muito enjoada. Enjoada, cansada e com a tensão avariada, pois teve de sentar-se 3 vezes durante as compras.

Entrámos para o carro e iniciámos a viagem de regresso em silêncio, sem saber o que dizer, como quem de repente se encontra num palco pela primeira vez, sem lhe ter sido entregue o guião da personagem que vai ter de representar.

Só o carro parecia saber exactamente o seu papel pois seguia o caminho a considerável velocidade, o que poderia dar a errónea impressão de o condutor ser vítima de um ataque de ansiedade.

Chegados a casa, a Zi foi direitinha para a casa de banho e eu consegui afastar-me mais de meio metro da porta, mas não por muito tempo.

“Então? já molhaste a extremidade do artefacto?”

“ Oh Henriqueee, pelo menos dá-me tempo de desapertar as calças!!”

Note-se que o uso de Henrique em vez de Kido denotava uma respeitável irritação. Adotei uma pose dignificada e fui encostar-me ao umbral da porta da sala sem poder evitar perguntar-me por que é que as mulheres demoram sempre tanto tempo a fazer tudo, mesmo as coisas mais simples!?

Finalmente, abriu a porta da casa de banho “Já está. Agora aqui diz para esperar um minuto, e ver qual é a parte que fica azul…  se ficar azul até este risco significa que estou …”

Mas o azul passou pelo menos três riscos para cima da marca. “ Oh caramba, deves ter gémeos!”

“Doido, não brinques, até posso nem estar grávida. A precisão destes testes não é 100%”.

“Eu acho que o resultado não deixa margens para dúvidas. Estás grávida! Mas o melhor é marcar uma consulta com o médico de família para fazer os testes deles e ver se confirmam o resultado. Pode ser que estes testes caseiros se enganem…” exclamei com pouca convicção.

Ela parecia mais frágil do que nunca e os seus 26 anos, mais jovens do que há minutos atrás. Senti uma ternura indescritível e abracei-a com tanto carinho que ela pareceu dissolver-se contra o meu peito.

“Oh kido, e agora?” murmurou com ar inseguro.

“Agora, o quê?… Se não o quiseres ter, não és obrigada.” Respondi, tentando trazer para a ocasião um ar mais prático e racional. Claro que eu tinha fortes suspeitas de que aquela pergunta era apenas retórica, pois a forma como ela costumava olhar para as crianças deixava transparecer uma certa tendência maternal.

“Oh, até nem sei o que pensar! Eu vou ter um bebé!…

E tu vais ser pai! Bom, também já não é sem tempo. Já estás a ficar velho.”

“Isso parece preocupar mais a tua cabeça e a dos meus amigos do que a minha. Eu a desfrutar da minha independência e as pessoas à minha volta a preocuparem-se com a minha descendência!”.

Ela deu um meio sorriso, que parecia dizer “tá bem tá… tu faz-te esquisito que até parece que eu não sei…” e deixou-se guiar para o sofá, onde nos estiramos comodamente, ela aninhada nos meus braços e juntos fingindo dar alguma importância à TV com o nosso olhar enquanto o pensamento divagava ansioso por caminhos desconhecidos, como que tentando adivinhar o que poderia encontrar logo depois desta curva inesperada da vida.

Rique Nunes


 

 

Lindo ❤

Kiss. kiss. Bang, Bang!

celmira

Crónicas de um grávido por Rique Nunes, o Conde!

 

O Henrique, Rique ou Conde para os amigos, tem um humor acutilante. Pertence ao clã dos Nunes,  a minha segunda família. Ao pé deles não imperam tristezas, como poderão constatar ao longo dos próximos episódios, que se auguram hilariantes. Pai de dois filhos maravilhosos, o Conde vai-nos presentear com as suas crónicas, escritas durante a gravidez da mulher. Uma aventura a não perder!

Diretamente de Londres para a “Carteira da Frente“, Rique – O grávido!

 

Episódio 1. 

Os homens deviam engravidar para saberem o que custa!

 

– Gritou a Josefa antes de assentar a tábua de engomar na cabeça do Faustino que, acabara de se sentar feliz e descontraído no sofá, a cantarolar, depois de chegar do café onde bebera uns copos com os amigos.

Ora, a Josefa não sabia que o Faustino tinha convidado os dois amigos do peito para brindarem juntos, ao futuro do rebento que vinha a caminho, e um brinde gerou outro e a uma rodada seguiu-se outra e outra…

E o Faustino não sabia que a Josefa tinha ficado ansiosa à espera dele, e à medida que passava a ferro, ia substituindo a ansiedade por ira, de modos que, quando o Faustino se sentou no sofá, já a tábua de passar estava encostada à parede, a roupa toda arrumada e os braços cruzados à espera de uma boa desculpa, e não de um sorriso meio ébrio, acompanhado de um salto acrobático para o sofá…

E nenhum dos dois sabia que, os vizinhos se sentiriam no dever de chamar a policia ao menor sinal de distúrbios, preocupados com o bem-estar da grávida….

Nem os agentes que acudiram ao local dos distúrbios, sabiam que o suspeito meio embriagado era vítima e não agressor, senão, teriam sido menos agressivos para com o pobre Faustino, acreditariam nele e talvez não o obrigassem a passar a noite no calabouço.

Este episódio, ilustra um conjunto de circunstâncias perfeitamente ordinárias que deram origem a um pequeno drama, cuja existência se deveu, única e exclusivamente,ao desarranjo hormonal da futura mãe. E o drama só não passou de pequeno, graças à virtuosa paciência do futuro pai.

Quanta tinta já correu pelo mundo, ansiosa por descrever os sacrifícios e o sofrimento das mulheres durante os difíceis e sagrados meses da gravidez! E com razão, porque as alterações físicas e mentais que provocam, na pessoa e no ambiente que a rodeia, são graves.

Desconfio que não seria exagero nenhum dizer que as tais hormonas, têm mais influência na humanidade do que todos os políticos juntos, e atenção que não digo isto assim de ânimo leve, mas sim após uma longa e meticulosa reflexão.

Quem já teve o privilégio, árduo mas altamente instrutivo, de acompanhar de perto uma gravidez, e atenção que este “acompanhar de perto” exclui enfermeiras, médicos e amigas que visitam de vez em quando para 2 dedos de conversa e para dizer “Aaai que barriga tão fofa!”, e refere-se exclusivamente aos que vivem diariamente debaixo do mesmo teto, sabe perfeitamente que a mais pequena coisa é motivo suficiente para guerra ou para lágrimas.

Daí que seria legítimo, dizer que muitos dos conflitos súbitos que afligiram a humanidade, provavelmente tenham tido origem em problemas hormonais femininos e suas consequências, no equilíbrio mental dos parceiros.

Note-se que, no até agora moderadamente eficiente exército americano, esteve proibida a gravidez em teatros de guerra até 2010. Mas isso, não era politicamente correto e agora teremos o possível cenário de um ser humano com as hormonas num caos e uma M16 nas mãos!

Com certeza que a ideia de proibir os líderes de co-habitar com esposas ou parceiras grávidas já terá passado por muitas cabeças, mas ter coragem para sugerir isso em voz alta requer bolas do tamanho de abóboras… o que obviamente nenhum politico possui.

 

Sobre este grávido:

Nome: Zé Henrique, Rique para os amigos, e “Lingrinhas” para a minha tia que desde os meus doze anos teima em chamar-me assim, não sei se por carinho ou se porque não se esquece da noite em que lhe besuntei a maçaneta da porta com “ovo” do Fiel (Fiel era o nosso belo e elegante perdigueiro), e ela, teve o azar de chegar primeiro a casa do que o safado do meu primo, que tinha ido dar uma volta na minha bicicleta, sem me pedir e fui dar com a bicicleta com um pneu furado”.

 

 


 

O episódio continua…

E nós esperamos ansiosamente, aqui Na Carteira Frente!

 

Kiss. kiss. Bang, Bang!

celmira

Humor em família!

Lidar com o nascimento e crescimento de um filho/a tem os seus momentos de humor. Isso mesmo é retratado na divertida e premiada coleção de banda desenhada Baby Blues de Rick Kirkman e Jerry Scott. Para quem não sabe, adoro banda desenhada, inteligente e subtil. E esta é uma delas. Bom fim-se-semana!

Kiss, kiss. Bang, bang!

celmira