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O Chico-Esperto social

Ao longo da vida tenho tido o (des)gosto de me cruzar com toda a espécie de chicos- espertos. Apesar de lhes devotar um profundo e esmagador desprezo, sempre os suportei. Tive em consideração o que sociólogos e investigadores, como o catedrático José Gil defendem sobre o chico-espertismo: apesar de ser uma característica bem portuguesa, ela é evidente ao longo da nossa história: mesmo Lenine na sua crueldade classificava “chico-espertismo” como o oportunismo do pequeno-burguês.

 

Importarmos o chico-espertismo burguês até poderia ser considerado positivo, fosse ele fosse sinónimo de desenrascanço altruísta, mas não é. Atualmente Chico-esperto não tem hora para se fazer anunciar, género ou cultura. Simplesmente convive diariamente ao nosso lado. Silencioso, à espera da oportunidade certa para se desenrascar sim, mas à nossa custa!

 

Apesar de traduzida numa espécie de oportunismo, com obscuros contornos morais, sempre pensei que existissem áreas sagradas, onde a consciência moral destes “Chicos” e “Chicas”, fosse de alguma forma ativada, respeitando assim valores de cidadania e solidariedade, como é o caso da área social, mas não, esta nova espécie rapidamente percebe que a área social é um tereno fértil que serve de trampolim para outros interesses (seus evidentemente!).

 

O “chico-esperto social” é assim aquele individuo, meio homem (ou mulher) meio vampiro, que suga sub-repticiamente aqui e ali, para levar para além e acolá, retirando evidentes benefícios ou a vantagens pessoais, mesmo em prejuízo de outros. O chico-esperto abdica de valores, tais como a honestidade intelectual, a ética ou o respeito pelo outro, para ter uma vida confortável. Na cabeça do chico-esperto impera a lei da selva para se ser bem-sucedido! Opções de vida pouco éticas com as quais me recuso a compactuar.

 

Entre a corrida perfídia e desenfreada para o sucesso e a caminhada compassada, mas digna e humanizada, prefiro a última. Até porque também prefiro gente nobre, que convive na honestidade. Como sempre ouvi dizer que espertos são os cães, sem desprestígio para o fiel amigo do homem, convidam-se os praticantes do chico-espertismo a começar a agir como eles: mesmo os cães famintos sabem que não é boa ideia morder a mão que os alimenta.

Kiss, kiss!

Bang, bang!

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Cuidar de quem cuida

A Maria e o marido convidam uma amiga para uma viagem de férias a cinco. Ela, o namorado, o casal e o filho. O José, típica e maravilhosamente autista, era aluno na escola da amiga e o profissionalismo que os uniu depressa evoluiu para amizade. Eram uma espécie de família.

Desafio aceite, rumam ao Algarve para uma casa alugada. As estereotipias do José não permitiam aos pais a entrada em hotéis. Ao final do segundo dia eram convidados a sair e desta vez precisavam mesmo de um período de descanso. E tiveram-no.

Às cinco da manhã, enquanto os pais dormiam, o José puxava a mão da professora verbalizando um “amos”, como que queria dizer “levanta-te que já dormiste demais e vamos mas é curtir a praia”. Isto depois de na noite anterior lhe ter dito “olá” de meia em meia hora pelo menos até às duas da manhã.

Aguentou firme as horas de passeio pela praia, sem nunca parar. Aguentou firme o olhar alienado de quem acha que estava na presença de um marciano. Aguentou firme o cansaço de quem quase não come, quase não dorme, o cansaço de quem cuida. E depressa percebeu a sua missão ali: cuidar! Não só do José, mas cuidar de quem todos os outros dias o cuida: daqueles pais que em 12 anos nunca mais tinham dormido 8 horas seguidas, nunca mais tinham desfrutado do mar a dois, nunca mais tinham namorado de mãos dadas ao pôr-do-sol.

Achou que lhes devia isso. Não que lho devesse necessariamente, mas amizade que lhes nutria era grande, maior ainda era o amor pelo José. Era quase seu. Mas apenas durante 8 dias. Voltou a casa exausta.

Cresceu.

Mal chegou tornou o impossível possível, criou um Centro de Turismo Rural Inclusivo (www.leque.pt) para receber os filhos e cuidar dos pais. Nos anos que se seguiram, foi “ama” de dezenas de jovens vindos de todo o país.

Cuidadores/as exaustos/as, famintos/as por uma pausa, mas temerosos/as, acabavam por lhe entregar, nas suas mãos desconhecidas, o seu bem mais precioso: os seus filhos. No rosto traziam estampada a culpa dilacerante, as lágrimas escorriam pelo rosto no momento da breve despedida para um par de semanas só suas.

Ano após ano, a culpa foi desaparecendo, e estes pais e mães perceberam, com sangue, suor e muitas lágrimas, a necessidade maior de cuidarem de si mesmos/as. Não por incapacidade, mas por humanidade, dado o desgaste prolongado, o desânimo aprendido, a autoculpabilização irracional, as noites mal dormidas, a vigília constante, o cansaço de anos sem descanso.

O propósito deste Centro  é uma mensagem aos Cuidadores/as Informais: Que se cuidem, pois quem não se cuida não consegue cuidar.

Publicado originalmente em: http://www.delas.pt/cuidar-de-quem-cuida/

Kiss, kiss! Bang, bang!

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Se tens medo de ser feliz, és um triste de todo o tamanho (por Pedro Chagas Freitas)

Hoje trago-vos um texto acutilante, de um autor irreverente, que nos faz ver a vida de um ângulo muito próprio: Pedro Chagas Freitas. Aqui fica, reflitam (se vos apetecer…):

“O que mais dói não é – desengana-te – a infelicidade. A infelicidade dói. Magoa. Martiriza. É intensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar. Mas a infelicidade não é o que mais dói. A infelicidade é infeliz – mas não é o que mais dói.

O que mais dói é a subfelicidade. A felicidade mais ou menos, a felicidade que não se faz felicidade, que fica sempre a meio de se ser. A quase felicidade. A subfelicidade não magoa – vai magoando; a subfelicidade não martiriza – vai martirizando. Não é intensa – mas é imensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar – mas em silêncio, em surdina, em anonimato. Como se não fosse. Mas é: a subfelicidade é. A subfelicidade faz-te ficar refém do que tens – mas nem assim te impede de te sentires apeado do que não tens e gostarias de ter. Do que está ali, sempre ali, sempre à mão de semear – e que, mesmo assim, nunca consegues tocar. A subfelicidade é o piso -1 da felicidade. E não há elevador algum que te leve a subir de piso. Tens de ser tu a pegar nas tuas perninhas e a subir as escadas. Anda daí.

Sair da subfelicidade é um drama. Um pesadelo. Sair da subfelicidade é mais difícil do que sair da infelicidade. Para sair da infelicidade, toda a gente sabe – tu mesmo o sabes: tens de tomar medidas drásticas. Medidas radicais. Porque a infelicidade é, também ela, radical. Mas sair da subfelicidade é uma batalha interior muito mais dolorosa. Desde logo, porque não sabes se queres, mesmo, sair da subfelicidade. Porque é na subfelicidade que consegues ter a certeza de que evitas a desilusão – terás, no máximo, a subdesilusão; porque é na subfelicidade que consegues ter a certeza de que evitas a perda – terás, no máximo, a subperda. Estás a ficar perdido com o que te digo?

A subfelicidade é o produto mais diabólico que a humanidade criou. Formatado pela consciência, o homem assimilou um conceito que, na verdade, não existe: o da felicidade segura. Espero que estejas bem seguro nessa cadeira quando leres o que aí vem no próximo parágrafo.

A felicidade segura não existe. A felicidade segura é segura, sim – mas não é felicidade. A felicidade pacífica é pacífica, sim – mas não é felicidade. A felicidade, quando é felicidade, assolapa, euforiza, arrebata. E não deixa respirar, e não deixa sequer pensar. A felicidade, quando é felicidade, é só felicidade. E tudo o que existe, quando existe felicidade, é a felicidade. Só ela e tu. Ela em ti. Ela em todo o tu. A felicidade, para ser felicidade, não tem estratos, não tem razão. Ou é ou não é. A felicidade é animal, de facto – mas é ainda mais demencial. Deixa-te louco de felicidade, maluco de alegria, passado dos cornos. Só quando estás dentro da felicidade é que estás fora de ti. Liberto do corpo, da matéria, da sensação – e imerso naquela indizível comunhão. Tu e a felicidade. Já a sentiste, não?

Não há como dizer de outra maneira: se estás acomodado à subfelicidade, se tens medo de ser feliz e preferes a certeza de seres subfeliz: és um triste de todo o tamanho. A subfelicidade é uma tristeza. Uma tristeza de hábitos, de rotinas, de sorrisos – uma tristeza que inibe a surpresa, o imprevisível, a gargalhada. Uma tristeza que te faz refém do que fazes e te impede de te seres o que és. Olha em redor: a toda a volta há pessoas subfelizes, pessoas que dizem “vai-se andando”, pessoas que dizem “tem de ser”, pessoas que dizem “eu até gosto dele”, pessoas que dizem “sou feliz” com os olhos cheios de “queria ser feliz”, pessoas que dizem “é a vida”. Mas não é. A vida não é a quase felicidade. A vida não é a subfelicidade. E, se é a primeira vez que vês isso, fica entendido o que sentes. Ou subentendido, pelo menos”.
in “Eu Sou Deus” – Pedro Chagas Feitas
http://www.pedrochagasfreitas.com/livros/eu-sou-deus/

 


 

Divino 😉

Kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

Namore com uma pessoa que te conquiste todos os dias… (por Jéssica Pellegrini)

 

Namore com uma pessoa que saiba o que quer.

Namore com uma pessoa que deixou o passado para trás, que planeia um futuro ao seu lado. Namore com uma pessoa que não tenha dúvidas. Que seja presente, e nunca ausente. Uma pessoa que te conforte, te oriente e te apoie. Namore com uma pessoa que não tenha desculpas, apenas em pedidos de arrependimentos ou erros. Com uma pessoa que te faça sorrir constantemente. Namore com uma pessoa que também tenha te escolhido, que se entregue intensamente e não meça limites para te agradar. Namore com uma pessoa que não tenha vergonha ou medo de demonstrar os sentimentos. Com uma pessoa que você possa confiar, contar e desabafar. Namore com uma pessoa que desperte o melhor de você, mesmo sem querer. Namore com uma pessoa que te conquiste todos os dias.

Namore com uma pessoa que te causa insónia, ou quem sabe, que te passa segurança o suficiente para você dormir profundamente. Namore com uma pessoa que te coloque em primeiro plano, e em todos os próximos. Namore com uma pessoa que seja gentil, e que não perca o equilíbrio em situações extremas. Namore com uma pessoa que te assuma, sem receios, que não te esconda, nunca. Namore com uma pessoa que tenha coragem para enfrentar os imprevistos da vida, que não vai soltar a tua mão em momentos difíceis. Namore com uma pessoa que não desista, que insista e persista. Com uma pessoa que te espere, e não te apresse. Namore com uma pessoa que te faça perder a noção do tempo, com uma pessoa que te causa arrepios. Namore com alguém que sinta a sua falta. Com uma pessoa que, no silêncio, te saiba escutar.

Namore com uma pessoa que leve café da manhã na cama. Com uma pessoa que prepare surpresas inesperadas. Namore com uma pessoa que te mande várias mensagens durante o dia, e ainda te ligue nos intervalos. Namore com uma pessoa que ao invés de te cobrar, queira ser o seu cúmplice. Namore com uma pessoa que seja companheiro e amigo. Namore com uma pessoa que te preencha com mais certezas do que perguntas. Namore com uma pessoa que transforme sonhos em realidade. Namore com uma pessoa que chegue mais vezes e não suporte despedidas. Namore com uma pessoa que sinta saudade, que faça cafuné. Namore com uma pessoa que não deixe nada para depois, que faça acontecer agora. Namore com uma pessoa que sinta orgulho de você, e que te incentive a ser ainda mais admirável. Namore com uma pessoa que desapegue do telemóvel quando está contigo, que viva no mundo real. Namore com uma pessoa que te inspire, que te faça cantar pelos cantos ou desenhar corações no vidro embaçado.

Namore com uma pessoa que você esteja apaixonado, e que mantenha essa chama sempre acesa. Namore com uma pessoa que você gosta do beijo, do toque e do cheiro. Namore com uma pessoa que te olhe de dentro para fora, e saiba, sem hesitar, que só existe você e ninguém mais. Namore com alguém que planeia um casamento, que queira ter filhos e animais de estimação. Namore com alguém que te faça olhar para trás, e esteja disposto a organizar todo o seu quarto bagunçado. Namore com uma pessoa que vai conhecer os seus parentes e se tornar a sua família. Namore com uma pessoa que troque o aluguer por casa própria. Que jogue fora a cama de solteiro e compre um jogo de casal. Namore com alguém que se preocupe e te cuide.

Namore com uma pessoa que você agradeça com olhos lacrimejados, por depois de tantos equívocos, ter colocado sentido na sua busca incessante por um relacionamento ideal. E finalmente, ter feito todos os primeiros pedaços de bolo se tornarem a sua dieta mais saudável: de amor, carinho e respeito, em apenas uma pessoa.

No caso, amor, é você.

Escrito por Jéssica Pellegrini

 


 

Kiss, kiss. Bang, Bang!

celmira

Posso SER e EXISTIR, sem rótulos nenhuns?!! Agradeço.

 

Há algum tempo que não escrevia. O tempo e a saúde são elementos tramados nisto de tentar ser “super mulher” (É tão interessante quanto ridículo  termos essa triste ambição: de fazermos mais do que podemos, mais do que devemos, mais do que sequer a saúde nos permite. Já não é teimosia. É vício. Um vício perigoso, aliás como todos os outros). Bom, como tenho de parar de vez em quando (a isso me obrigam) aproveito para falar ou escrever sobre o que gosto.

Chegado ao final de mais um ano (Intenso como todos os outros, pois qualquer professor/a que se preze chega a esta altura do ano sem grande energia…), resta-me refletir sobre a sensibilidade para a diversidade que encontro nos contextos educativos e sociais onde me vou cruzando.

Já nem vou falar de avaliações, nem da avaliação dos alunos/as com necessidades educativas especiais (NEE), pois não quero estragar as férias a ninguém… (entenda-se: mais vale ser feliz que ter razão, caríssimos e em algumas locais esta máxima deve ser rigorosamente cumprida!).

Apenas esclarecer alguns pontos.

A nossa celebração: Poder lutar todos os dias para que estas crianças tenham o direito à sua identidade e que esta sua diversidade seja respeitada na sociedade como uma mais valia (e não como uma maldição) e nisto tudo, poder SER e EXISTIR sem limitações (significa: poderem ver ressaltadas as suas capacidades e não só as suas dificuldades).

Mas para serem e existirem sem limitações, precisamos nós (os outros) de tirar os esqueletos que temos no armário, as pesadas e bafientas representações sobre a deficiência, abandonarmos os rótulos, os estereótipos, as teorias implícitas e raras de que ter Autismo, Síndrome de Down, Dislexia ou outra coisa qualquer significa uma LIMITAÇÃO EXISTENCIAL PERMANENTE, INCAPACIDADE TOTAL, AUSÊNCIA DE COMPETÊNCIA, BLACKOUT TOTAL!

Meus senhores e minhas senhoras, esta forma ortodoxa de ver a população com necesidades especiais está cada vez mais desadequada daquilo que representam hoje estas pessoas. Basta vermos os exemplos que todos os dias se cruzam conosco na sociedade. Que a falta de cultura não seja uma desculpa para castrarmos as potencialidades destas crianças e jovens, pois se forem alvo de uma boa intervenção, poderão ser adultos com futuros brilhantes.

Inúmeros homens e mulheres conseguiram muito mais do que era expectável, em tempos muito mais difíceis do que os atuais. Mais, conseguiram a proeza de eternizar os seus nomes na História, apesar das suas deficiências ou ditas incapacidades. O que os impediu se serem quem são?

Exemplos?

Bill Gates (citado no livro “Thinking in pictures” de Temple Grandin como tendo características autistas – Síndrome de Asperger): diretor da Microsoft e inventor do Windows. Nasceu em 1955 em Seattle (EUA). Gates balançava-se continuamente durante reuniões de negócios e em aviões, não gostava de manter contacto ocular e tinha pouca habilidade social. Isso impediu-o de ter o sucesso que teve?

E mais uns…

Abraham Lincoln, presidente dos EUA (Síndrome de Marfan)
Agatha Christie, escritora (dislexia)
Albert Einstein, cientista (dislexia)
Alexander Graham Bell, inventor – telefone (dislexia)
Alexander Pope, escritor (malformações congênitas)
Andrea Bocelli , cantor (cega)

Andy Warhol (Autismo)
Auguste Renoir, pintor (artrite reumatóide)
Ben Johnson, desportista (dislexia) 
Charles Darwin, cientista (dislexia)
Chris Burke, ator americano (síndrome de Down) 
Christopher Reeve, artista de cinema (tetraplegia)
Cláudio imperador romano (deficiências múltiplas)
Franklin D. Roosevelt, estadista (poliomielite)
Gustave Flaubert, (dislexia)
Hans Christian Andersen, escritor (dislexia)
Harry Belafonte, artista de cinema (dislexia)
Heather Whitestone, miss EUA (deficiência auditiva)
Helen Keller, escritora (cegueira e deficiência auditiva)

Leonardo DaVinci, inventor (dislexia)

Louis Braille, (cegueira)
Ludwig Van Beethoven, compositor (deficiência auditiva)

Nelson Ned, cantor (nanismo)

Oliver Reed, ator inglês (dislexia)

Ray Charles, cantor (cegueira)

Robin Williams, ator (dislexia)

Stevie Wonder, cantor (cegueira)

Thomas A. Edison, inventor (dislexia e deficiência auditiva)

Tom Cruise, artista de cinema (dislexia)

Vincent Van Gogh, pintor (dislexia)

Walt Disney, empresário e desenhista (dislexia)
Whoopy Goldberg, atriz de cinema (dislexia)
Wilma Mankiller, (distrofia muscular)
William Hickling Prescott, historiador (cegueira)
Winston Churchill, estadista (dislexia)
Woodrow Wilson, estadista (dislexia)

Vincent van Gogh (Autismo)

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c

Chega?Há mais em http://www.crfaster.com.br/gfamosos.htm

Uma sugestão:

Quando não tivermos sensibilidade para reconhecer na diversidade o seu valor, façamos  a única coisa boa e sensata que podemos fazer: estar calados e impedir que as nossas opiniões e atitudes tóxicas  contaminem os pares, os pais e outros colegas, sob a pena do pensamento para a diversidade, o processo de inclusão social e o futuro das nossas crianças entrar num buraco sem fundo.

Tenho dito.

Kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

 

 

Há muitos anos que não temos férias…

 

Criar um Centro de Turismo Rural Inclusivo, porque? Equacionam-se muitos/as, no conforto da consciência mordaz de num vir a precisar de descançar. O cansaço do cuidador informal existe e não pode ser um tabu. O síndrome da avestruz (enviar a cabeça na areia) também já não pode, nem deve justificar a hipocrisia da crítica dos que apenas falam de inclusão.

Nao me falem de inclusão. Façam-na. E neste projeto, tal como em todos os outros eu também a quis fazer, mas mal a “malta” soube que nestas colónias iam “coexistir” pessoas COM e SEM deficiência, trataram de anular a inscrição dos filhos/as, não fosse a deficiência pegar-se!

Marimbei-me para o conceito, sem nunca o esquecer. O nosso centro não é um gueto, mas se “os outros” não se querem misturar, azar. Estas pessoas merecem o melhor que lhe possamos dar.

E foi a pensar nelas que o projeto do “Centro de Turismo Rural Inclusivo ” da Associação Leque se edificou e continua a crescer. Depois recebemos mensagens assim:

“Ola Dra. Celmira, ainda não tive oportunidade de lhe agradecer pela semana que proporcionou ao meu irmão. É incrível a relação que vocês estabelecem com eles assim como as atividades. Vocês de facto cativaram o meu irmão e isso nem todos os técnicos conseguem ainda hoje se lhe perguntar se quer ir pra piscina ou se quer voltar para vocês ele diz logo que sim….

Graças a vocês conseguimos uns dias de descanso pois há 5 anos que não tínhamos férias, desde que comecei a trabalhar só tinha férias em agosto e como em agosto a instituição do meu irmão fechava, acabávamos por ficar por casa… já não conhecíamos o conceito de férias.

Mais uma vez elogio o seu trabalho, fiquei a admirá-la ainda mais, pois a forma como nos recebeu, como lidava com os miúdos é algo que não se vê em todos os presidentes de associações.

Tenho pena e entristece-me que no nosso país as mentalidades sejam pequenas ao ponto de não se apoiar a nível estatal e de não se replicar uma instituição como a leque, e se continue a investir e a replicar instituições que servem apenas como “depósitos” onde se coloca lá os miúdos e os idosos e eles ali ficam à espera da morte. A mim enquanto educadora social essa espécie de instituições revoltam-me, chocam-me sou mesmo contra…

Mais uma vez um bem-haja e continue com essa força e felicidade porque esta área, estes pais/famílias precisam de instituições como a leque e de pessoas como você…. bjs e até qualquer dia.”

Diana Moreira


 

Eu é que agradeço ❤ todos os dias por me permitirem abraçar os vossos filhos/as!

 

Vejam como foi:

 

Captura de ecrã 2015-11-15, às 13.05.56

http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2015-08-23-Ferias-inclusivas-em-Miranda-do-Douro

Kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

QUEREMOS LER O MUNDO

 

QUEREMOS LER O MUNDO.

Queremos um mundo onde a diferença seja a igualdade de acessos, saberes, géneros, feitios, formas e identidades. Onde toda a informação seja fácil e provoque emoção, evasão, estímulos e códigos que se decifram em DESCOBERTA.

Agora, há em nós um sentido que aponta para um mundo inclusivo onde não estamos sós, onde um par nos espera e nos leva a conhecer o mundo.

Rendamo-nos ao desafio de uma Linguagem Universal!

Uma linguagem de códigos, signos e símbolos que nos converte em seres capazes de comunicar.

A Alfabetização EKUI é o “primeiro dia” na comunicação para o resto das nossas vidas. O Mestre que se deixar apaixonar não se cansará de ouvir, contar, repetir e ensinar! O Aprendiz correrá sempre em direção à descoberta e à conquista de conhecimento! 

Por uma comunicação universal e acessível a todos/as. EKUI – Linha de Material Lúdico- didático Inclusivo. EKUIze-se! (www.ekui.pt).

QUEREMOS O EKUI PARA TODOS/AS!

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http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2015-05-05-Ekui-Cards-utiliza-linguagem-universal-para-ensinar-alfabeto-a-pessoas-com-limitacoes

 

Kiss, Kiss. Bang, bang

celmira

O dia em que ouvi uma voz no corredor (por Ana Beja)

 

Estava sentada no sofá da sala, a ver televisão, quando ouço a voz de um homem vinda do fundo do corredor. Primeiro não liguei, entretida com o que estava a ver, mas a certa altura, quando me apercebo do som forte da sua voz, resolvo ir averiguar, pois tinha a certeza de que só estava em casa com o meu filho mais velho. Saio da sala, percorro o corredor e o som é cada vez mais grave e forte. E próximo…Passo pelo quarto da minha filha, vazio e chego ao quarto dele. O som está ali. Vem dali, penso eu. Abro a porta e era o meu filho. Ao computador com um amigo. A voz forte que ouvia era a dele. Fico atordoada. Apercebo-me nesse momento que o meu filho deixou de ser um menino e passou a ser um rapaz! Apercebo-me que o miúdo loiro e pequenino, que tanto chamava pela mãe, está um adolescente feito! Com 1m e 75cm e a pesar 70 kg!

Ele, espantado com a minha cara de pânico, pergunta-me se estou bem. Estou bem?? Como é que eu posso “estar bem” se ainda ontem lhes mudava as fraldas e lhes dava papas de arroz sem glúten e hoje já tenho de lhes comprar Clearasil e máscaras de argila para as borbulhas? Não estava preparada para isto!

Dás-te conta que 15 anos passaram a correr e que toda a gente te avisou para “os aproveitares enquanto são pequeninos” e pensas “que exagero, passam lá agora!” e acreditas que irão ser sempre os teus bebés, fofos e reboludos, e de repente, como que por magia, estás a viver o refrão do “Não há estrelas no céu”, do Rui Veloso, na tua casa!

Dás-te conta que estão a crescer e que lentamente cortam o “cordão umbilical” quando te pedem para irem de fim de semana com os amigos, quando te dizem para os deixares 3 ruas acima da porta da escola, quando se envergonham de te dar beijos em público e quando te pedem para não ires assistir aos eventos desportivos que praticam, porque “vais ser a única mãe na bancada”!

Dás-te conta que afinal já tens 2 adolescentes em casa (ela só tem 1 ano a menos) quando não ouvem nada do que dizes e tens de pedir 15 vezes para arrumarem os quartos (sob ameaças, castigos e chantagens). Apercebes-te de que eles estão a crescer, porque já estás fora de moda, pois as “amigas é que têm estilo” e que nunca te soubeste maquilhar porque não tinhas os tutoriais fantásticos para o efeito, no youtube. Dás ainda conta que afinal não percebias nada de computadores e dispositivos móveis, pois dão-te dez a zero no manuseamento dos mesmos!

Dás-te conta que estás a ficar mais velha e que eles estão a crescer, quando olhas pela janela e já não os vês a brincar às escondidas com os miúdos do bairro, quando já não te chamam a meio da noite porque estavam a ter um pesadelo e quando já não vais com eles comprar o material escolar. Quando já não querem ir contigo a lado nenhum, mas sim ao cinema com os amigos. Quando já não querem coca-cola e te chateiam para beberem uma Radler. Quando já não andam à bulha no sofá para se sentarem ao teu colo, mas te pedem dinheiro para saírem à noite com os amigos e então depois, quando chegarem, sentam-se um bocadinho contigo no bendito sofá. Reparas que estão enormes quando já não te lembras da última vez em que entraste na Zara Kids, quando demoram 1 hora a tomar banho e “entornam” o frasco de perfume pela roupa abaixo! Quando começam a fazer a barba, a enrolar o cabelo com um ferro quente e quando batem com a porta do quarto na cara um do outro, pois tudo é um verdadeiro drama!

Quando o choque passa, acordas… “pois é, já não são meninos! São os meus filhos… grandes. Que começam a ganhar asas e a querer voar”. E compreendes que tudo isto faz parte do ciclo da vida e que ainda bem que é assim. Que a vida está quase por conta deles e que irão errar e bater com a cabeça muitas vezes. Que vais passar para segundo, terceiro e quarto plano e que só muito mais tarde é que irão dar valor ao que dizias. Que daqui a 3 anos estão a entrar na universidade e a viverem sozinhos, num quarto, com uma cambada de colegas, em farras e noitadas quase diárias! E que só tens a casa cheia aos fins de semana para lhes lavar a roupa e preparares as marmitas com a comida para a semana! E quando esse dia chegar (que vai chegar à mesma velocidade como chegou o dia em que ouvi uma voz de homem ao fundo do corredor), olhas para trás e pensas que tudo isto passou a correr e que darias tudo para os voltares a ver, da janela, a brincarem às escondidas com os miúdos do bairro!

Ana Beja

Foto: http://revistadeciframe.com

 


 

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Disse-me que já tinha vivido tudo… (por Ana Beja)

 

Disse-me que já tinha vivido tudo. E que tinha mais anos para trás do que para a frente. Também pouca diferença lhe fazia. O que teve de ser feito, fez. Agora era passado. Pretérito perfeito. Ou imperfeito, diria eu. Porque isto de se estar no fim da vida não deve ser nada fácil.

De olhar vazio na conversa, acrescentou que a vida passa num instante e que a devemos aproveitar todos os dias. Resta-lhe a fé. Companheira de longa viagem e herança deixada pela mãe. A única, também. Já que eram pessoas de parcos recursos, mas honestas! Eram 8 irmãos. Conheceu 6. Dois perderam a vida em pequenos. Foi aí que a fé preencheu o vazio do coração da mãe. Havia respeito. Todos se sentavam à mesa à mesma hora. O pai na cabeceira. A mãe ao lado. Primeiro a mãe servia o pai. Depois os filhos. Por ordem decrescente. No fim sobrava-lhe o resto. Sempre chegou para todos. Afirmou com a voz segura.

Não estudou. Não havia tempo para estudos. Também nunca fui muito bom com letras. Sei o essencial, afirmou. Fui até à 4º classe com o Professor Silvério e levei muita canada! Ainda hoje as letras se embaralham…mas já deve ser dos olhos…94 anos a puxar por eles! A idade pesa, sabe? Diz-me ele de olhar posto no horizonte. O tempo encarrega-se disso. Já não sou o que era. O corpo começa a dar sinal, pouco a pouco. Primeiro é uma dor aqui, depois outra ali…remédio para isto, remédio para aquilo…mas não há medicação que nos cure da velhice. E dela não podemos fugir! Aparece devagar, quase nem se dá por isso. Antes lavrava um pedaço de terra enquanto o diabo esfregava um olho! Agora está aqui tudo por lavrar. Se a minha Maria visse uma coisa destas…Já partiu faz agora 17 anos. Fiquei sozinho desde que ela foi. Perdi a minha companhia. Fui-me abaixo desde que ela foi para o céu. Sim, que a minha Maria foi para junto Dele.

Os filhos têm as vidas deles. Pouco querem saber disto. Tenho dois na Alemanha e uma na Suíça. Vêm cá no verão. Para as festas da aldeia. Eu nem saio nesses dias. É cá um barulho! Mas gosto que venham cá, diz agora com o rosto iluminado. É a primeira vez que lhe vejo o sorriso. Aberto, enrugado e queimado pelo sol. Despeço-me com um abraço. Agradeceu por o ter ouvido. Já quase ninguém me ouve, terminou. Eu ficaria ali a ouvi-lo até quando lhe apetecesse. Prometo que se um dia lá voltar o irei procurar. Respondeu que ficará no mesmo lugar. À espera. Não de mim, mas do dia em que voltará a ver a sua Maria.

Ana Beja


 

Kiss, kiss. Bang, bang

celmira

 

CONFERÊNCIA – COMUNICAÇÃO PARA A INCLUSÃO

 

CONFERÊNCIA – COMUNICAÇÃO PARA A INCLUSÃO

Esta conferência é organizada pelo Projecto In My Shoes.

Dia 10 de Julho (Jardins do Palácio de Cristal)

14h30-16h15
Boas Vindas In 
My Shoes – Apresentações/Conversa

– Mariana Teixeira | Projecto In My Shoes

 Miriam Azevedo | Anditec

 Hugo Vilela | Places4all

 Celmira Macedo | EKUI

16h15-16h30
Encerramento

 Filipe Araújo | Vereador do Pelouro da Inovação e Ambiente

 

Faça a sua inscrição em CONFERÊNCIAS.

 

Vemo-nos por lá?

Kiss, kis. Bang, bang!

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