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Cuidar de quem cuida

A Maria e o marido convidam uma amiga para uma viagem de férias a cinco. Ela, o namorado, o casal e o filho. O José, típica e maravilhosamente autista, era aluno na escola da amiga e o profissionalismo que os uniu depressa evoluiu para amizade. Eram uma espécie de família.

Desafio aceite, rumam ao Algarve para uma casa alugada. As estereotipias do José não permitiam aos pais a entrada em hotéis. Ao final do segundo dia eram convidados a sair e desta vez precisavam mesmo de um período de descanso. E tiveram-no.

Às cinco da manhã, enquanto os pais dormiam, o José puxava a mão da professora verbalizando um “amos”, como que queria dizer “levanta-te que já dormiste demais e vamos mas é curtir a praia”. Isto depois de na noite anterior lhe ter dito “olá” de meia em meia hora pelo menos até às duas da manhã.

Aguentou firme as horas de passeio pela praia, sem nunca parar. Aguentou firme o olhar alienado de quem acha que estava na presença de um marciano. Aguentou firme o cansaço de quem quase não come, quase não dorme, o cansaço de quem cuida. E depressa percebeu a sua missão ali: cuidar! Não só do José, mas cuidar de quem todos os outros dias o cuida: daqueles pais que em 12 anos nunca mais tinham dormido 8 horas seguidas, nunca mais tinham desfrutado do mar a dois, nunca mais tinham namorado de mãos dadas ao pôr-do-sol.

Achou que lhes devia isso. Não que lho devesse necessariamente, mas amizade que lhes nutria era grande, maior ainda era o amor pelo José. Era quase seu. Mas apenas durante 8 dias. Voltou a casa exausta.

Cresceu.

Mal chegou tornou o impossível possível, criou um Centro de Turismo Rural Inclusivo (www.leque.pt) para receber os filhos e cuidar dos pais. Nos anos que se seguiram, foi “ama” de dezenas de jovens vindos de todo o país.

Cuidadores/as exaustos/as, famintos/as por uma pausa, mas temerosos/as, acabavam por lhe entregar, nas suas mãos desconhecidas, o seu bem mais precioso: os seus filhos. No rosto traziam estampada a culpa dilacerante, as lágrimas escorriam pelo rosto no momento da breve despedida para um par de semanas só suas.

Ano após ano, a culpa foi desaparecendo, e estes pais e mães perceberam, com sangue, suor e muitas lágrimas, a necessidade maior de cuidarem de si mesmos/as. Não por incapacidade, mas por humanidade, dado o desgaste prolongado, o desânimo aprendido, a autoculpabilização irracional, as noites mal dormidas, a vigília constante, o cansaço de anos sem descanso.

O propósito deste Centro  é uma mensagem aos Cuidadores/as Informais: Que se cuidem, pois quem não se cuida não consegue cuidar.

Publicado originalmente em: http://www.delas.pt/cuidar-de-quem-cuida/

Kiss, kiss! Bang, bang!

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Há muitos anos que não temos férias…

 

Criar um Centro de Turismo Rural Inclusivo, porque? Equacionam-se muitos/as, no conforto da consciência mordaz de num vir a precisar de descançar. O cansaço do cuidador informal existe e não pode ser um tabu. O síndrome da avestruz (enviar a cabeça na areia) também já não pode, nem deve justificar a hipocrisia da crítica dos que apenas falam de inclusão.

Nao me falem de inclusão. Façam-na. E neste projeto, tal como em todos os outros eu também a quis fazer, mas mal a “malta” soube que nestas colónias iam “coexistir” pessoas COM e SEM deficiência, trataram de anular a inscrição dos filhos/as, não fosse a deficiência pegar-se!

Marimbei-me para o conceito, sem nunca o esquecer. O nosso centro não é um gueto, mas se “os outros” não se querem misturar, azar. Estas pessoas merecem o melhor que lhe possamos dar.

E foi a pensar nelas que o projeto do “Centro de Turismo Rural Inclusivo ” da Associação Leque se edificou e continua a crescer. Depois recebemos mensagens assim:

“Ola Dra. Celmira, ainda não tive oportunidade de lhe agradecer pela semana que proporcionou ao meu irmão. É incrível a relação que vocês estabelecem com eles assim como as atividades. Vocês de facto cativaram o meu irmão e isso nem todos os técnicos conseguem ainda hoje se lhe perguntar se quer ir pra piscina ou se quer voltar para vocês ele diz logo que sim….

Graças a vocês conseguimos uns dias de descanso pois há 5 anos que não tínhamos férias, desde que comecei a trabalhar só tinha férias em agosto e como em agosto a instituição do meu irmão fechava, acabávamos por ficar por casa… já não conhecíamos o conceito de férias.

Mais uma vez elogio o seu trabalho, fiquei a admirá-la ainda mais, pois a forma como nos recebeu, como lidava com os miúdos é algo que não se vê em todos os presidentes de associações.

Tenho pena e entristece-me que no nosso país as mentalidades sejam pequenas ao ponto de não se apoiar a nível estatal e de não se replicar uma instituição como a leque, e se continue a investir e a replicar instituições que servem apenas como “depósitos” onde se coloca lá os miúdos e os idosos e eles ali ficam à espera da morte. A mim enquanto educadora social essa espécie de instituições revoltam-me, chocam-me sou mesmo contra…

Mais uma vez um bem-haja e continue com essa força e felicidade porque esta área, estes pais/famílias precisam de instituições como a leque e de pessoas como você…. bjs e até qualquer dia.”

Diana Moreira


 

Eu é que agradeço ❤ todos os dias por me permitirem abraçar os vossos filhos/as!

 

Vejam como foi:

 

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http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2015-08-23-Ferias-inclusivas-em-Miranda-do-Douro

Kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

Cao ou caos?!!!

 

Um pouco por todo o país proliferam a uma velocidade quase galopante a construção e dinamização de Centros de Atividades Ocupacionais (CAO) para pessoas com deficiência ou incapacidades. Com maior facilidade legislativa, imperam no conforto,  de logo que se constituem, serem apoiados pela Segurança Social.

Nos normativos legais sustentados pela Segurança Social, refere-se que este tipo de respostas deve garantir o respeito pelo direitos das pessoas com deficiências e incapacidades e viabilizar a sua integração social e profissional. Para tal devem se criadas soluções de complementaridade ou de alternativa à situação familiar, que contribuam efectivamente para a sua autonomia, valorização pessoal e desenvolvimento das suas capacidades e potenciais. Desta forma, considera-se que a qualidade e a segurança das respostas seja um passo fundamental para a promoção de uma sociedade justa, desenvolvida e inclusa.

Coloco, na certeza de que me cairá o mundo em cima, a questão de um milhão de dólares: Será?

Centro-me no princípio da “promoção da sua autonomia, valorização pessoal e desenvolvimento das suas capacidades e potenciais”. Porque pelo que vejo e oiço, não me parece que alguns destes CAOs disponibilizem serviços promotores de integração e inclusão social dos seus frequentadores. Nem tão pouco percebo das suas práticas representações onde a inclusão social (e em alguns casos mais graves) o própio respeito pelos direitos humanos seja uma realidade! Ostracizadas em si mesmos, com modelos de atuação bafientos, descentradas da realidade atual das famílias e do real interesses das populações que servem.

O que será necessário para que estas organizações abram as portas à realidade (para deixar entrar e fazer sair valor?) . Sim porque a questão não é financeira, já que dinheiro não lhes falta, e se falta, nem me digam, porque não fazem a ideai do que é viver sem ele! Ah! já me esquecia, os valores não se pagam, ou seja nao têm preço e isto meus amigos/as é uma questão de valores!

Sim, porque para quem inova e apresenta respostas renovadas aos serviços das populações que delas precisam, o dinheiro não vai de certeza! Estas organizações, atípicas por sinal, fazem mais do que lhes é pedido, logo têm de ser castigadas por tamanha façanha! Vivam sem dinheiro para verem o que custa a vida!

E vivemos!

Não dentro de um de CAO. Vivemos sim num CAOS!

Acredito que num caos organizado, encurtado e desgastado de tanta luta por manter recursos humanos, rentabilizar os recursos da comunidade, criar redes e parceiros, abrir a porta da instituição aos verdadeiros problemas das famílias, tentando com elas encontrar soluções.

O caos está cá. Um CAO, não. E dinheiro fácil (permitam-me que lhe chame assim, pois não é suado, lutado espremido e sangrado), também não!

Mas ainda assim aqui Associação Leque (e em outras instituições como esta) não se baixam os braços. Pois lá dizia Friedrich Nietzsche é preciso ter dentro o caos para gerar uma estrela. E nós temos várias:

Temos o único  Centro Terapêutico com todas as áreas de intervenção e reabilitação do nordeste transmontano, aberto à comunidade (para pessoas com e sem necessidades especiais).

Temos o único Centro de Férias de Turismo Rural Inclusivo do país! A funcionar este ano em Miranda do Douro, durante o mês de Agosto.

Temos a primeira linha de material lúdico/didático inclusivo do peninsula ibérica: a marca EKUI (www.ekui.pt). Material de alfabetização e comunicação para todos/as.

E assim se vive na Leque. Com uma lufada de ar fresco no Terceiro Sector. Sem dinheiro fácil. Com uma vida difícil, mas com muita, muita criatividade! Geramos riqueza, geramos qualidade de vida e geramos valor!

Vivam os CAOS como o nosso!

Kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

Inclusão?! Ou nos entendemos ou nunca lhe poremos a vista em cima!

Hoje o texto é pesado e sentido de coração. Surge numa fase difícil em que o trabalho e a luta se avolumam e a saúde se mantém frágil e teima em não acompanhar a hiperatividade e as ânsias da mente. Assumo-me como uma “fazedora”, numa sociedade que teima em dividir-se entre os “fazedores” e os “faladores”. Cada vez tenho mais dificuldade em conviver com este tipo de cultura. Respeito muito quem fala com conhecimento de causa e acrescenta por isso, valor às ditas causas.
 
E se é fácil ser “falador”, ser “fazedor” cansa muito, pois muitas são as angústias pelas quais passa em Portugal. Os “fazedores” erram muito, por isso também lhes cai tudo o mundo em cima: críticas, pontapés verbais, levam com tudo. Só não levam com contribuições.
 
E não estou a falar de contribuições monetárias (essas também seriam bem aceites, mas não é o caso). Falo de contribuições sérias; ideias construtivas; sugestões estruturadas baseadas na experiência, nos erros;  indicações de caminhos a seguir.
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Não, isso é pedir demasiado!
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Em Portugal valorizamos os “faladores”, ou seja os refletem muito, escrevem e falam muito sobre o assunto, mas pôr a mão na massa, isso já são “outros trezentos”. Sabem sempre fazer melhor, mas não dizem é como.
 
O texto que me traz hoje aqui é Inclusão. Esse grande monstro paradigmático pelo qual lutam milhões de pessoas todos os dias, porque é um direito! Mas mesmo neste capítulo surge a guerra entre os “fazedores” e os “faladores”.
 
Revisito Paulo Freire, e acrescento, tal como a cidadania, a Inclusão não se escreve apenas, VIVE-SE ou seja FAZ-SE! E neste campo andamos a misturar peras com maçãs. Sobretudo andamos a esquecer-nos que a inclusão apenas se edificará nos consensos, na união, no respeito e na diversidade (até de opiniões).
Não queremos todos/as uma sociedade de participação equitativa, onde todos/as são aceites e respeitados/as naquilo que os/as diferencia dos outros/as? A meu ver esta luta assume quatro frentes, todas diversas mas com esse denominador comum:
 
1.  A Guerra com o poder político/normativo que a nível macrossistémico deve ser permeável aos interesses de todos/as os Cidadãos /ãs;
2. A Guerra com as Instituições;
3. A Guerra com a Sociedade Civil;
4. A Guerra com as Escolas e o Sistema Educativo.
 
Vamos por partes.
 
1. A Guerra com o poder político/normativo
 
Os normativos legais têm cada vez mais de se adequarem às necessidades, interesses e idiossincrasias das populações. Não podem continuar a ser uns quantos treinadores de bancada, catedráticos de gabinete, que o maior contacto que tiveram com a Escola foi quando lá andaram, e agora de longe, decidem o que nela vai acontecer. Pondo em risco, por uma má decisão (ou várias), a vida de milhares de alunos/as e famílias. Cada vez mais as famílias e Associações que as representam devem ser ouvidas! E nisto há consenso entre “fazedores” e “faladores”. Onde me parece não haver consenso é que, não é com guerras que lá vamos! 
E lei devia ser feita pela experiência do “fazedor” e não do “falador”.
 
2. A Guerra contra as Instituições
 
Parece estar na moda dar porrada às Instituições. E eu concordo, mas há que acautelar excepções. Que existem e muitas!
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É verdade, há muito que refletir sobre modelos bacocos e bafientos de organização social, verdadeiros guetos, que já não se enquadram nas politicas sociais atuais, nem tão pouco se adaptam às novas realidades e necessidades da famílias. Com os apoios que recebem, devem no mínimo, estar atentos a novas práticas ou tentativas de caminhar no sentido da participação comunitária da sua população-alvo e da sua Inclusão Social/laboral.
Os CAOs (Centros de Atividades Ocupacionais), são disso um exemplo. Alguns têm recursos, mas continuam a reter os seus “utentes” dentro das paredes das IPSSs. E porque não criar protocolos de integração destes jovens e adultos,  para o desempenho de funções profissionalizantes no tecido empresarial comunitário? 
 
Nós fazemos isso a partir da Associação Leque e não somos CAO. E nem apoios do Estado temos!
 
A Associação Leque tem provado ser e excepção que confirma a regra, por conter medidas de modelo de organização social mais inclusivas. E temos pago a fatura por isso. E como?
Pelo desprezo de instituições homólogas e a antipatia de quem as preside ou defende. E, mais, este tipo de inovação, faz com que as respostas que propomos não se enquadrem nas respostas previstas na lei. Reparem que ate à data nunca fomos apoiados pelo Estado, precisamente por não acreditarmos na institucionalização e por apresentarmos modelos de organização diferenciados e inovadores. 
 
O que seria uma luz no fundo do túnel no caminho da Inclusão, também parece não receber os consensos dos “faladores”, que se dizem defensores de uma nova agenda para as Instituições no Terceiro Sector. Mas defender isto, não implica estar atento ao que de novo se faz por este país fora? Ou o país termina em Coimbra? Não seria de incentivar os “fazedores” que pelo menos TENTAM romper barreiras? Dever devia, mas lá vem a cultura do dizer mal, a falar mais alto.
 
Para melhor perceber esta questão, explico as nossas tentativas “falhadas” no caminho da Inclusão. E são dolorosamente muitas e castrantes:
 
a) ATL INCLUSIVO – Espaço de Ocupação de Tempos Livres, aberto a crianças e jovens com e sem Necessidades Especiais (NE). Quando o dinamizarmos pela primeira vez, tivemos alguma adesão. Acreditei que poderíamos daqui a uns anos ter uma comunidade melhor, já que crianças e jovens brincavam e relacionavam-se com os seus pares num meio o “menos restritivo possível”. Era uma inocente na altura, já que, 2 anos depois, um empresário motivado pelo sucesso das nossas práticas, resolveu tirar a sustentabilidade da a Associação e abriu um ATL. Este sim, o menos restritivo possível, ou seja, onde não se aceitam crianças/jovens com NE.
Resultado: 90% dos pais das crianças ditas “normais” (e este normais tem tantas aspas que se as colocasse todas ficava com limitações de espaço!!!) tiraram os filhos/as do ATL Inclusivo: “Doutora, não é o meu caso, mas os pais/mães dizem que não estavam a gostar das misturas, e a minha filha quer brincar com as amigas e também a vou tirar daqui”.
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Então. Vamos continuar a falar de inclusão? Ou de tentativas de a levar a cabo?
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b) Centro de Turismo Rural Inclusivo
O único do país, recebe crianças e jovens e funciona como um respiro para as famílias, que podem aqui deixar os filhos/as durante uma semana e ir de férias. No primeiro ano, quando começamos a publicitar a iniciativa tivemos inúmeras inscrições.
Resultado: 100% de pais de crianças ditas “normais” (e volto a referir que “este normais” tem tantas aspas que se as colocasse todas ficava com limitações de espaço!!!) desmarcaram a inscrição quando souberam que os filhos/as iram fazer férias com crianças com deficiência.
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É uma questão cultural ou regional? Não, não é, foram pessoas  de todo o país!
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Vamos continuar a falar de inclusão, ou de tentativas de a levar a cabo?
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Os “fazedores” convidam os “faladores” e quem saiba mais do que nós a sugerir, não uma agenda mas soluções reais para um problema real. O que estamos a fazer de errado?Querem continuar a dar porrada em Instituições que tentam ser inclusivas? Ou chegam os exemplos, porque há mais!
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c) Inserção de jovens a partir dos 18 anos na em oficinas profissionalizantes na comunidade:
Conseguimos depois de muita luta ter 3 empresas, em mais de 30 do concelho, que aceitaram que os nossos frequentadores fossem estagiar nas suas instalações, para ganharem competências profissionalizantes (cabeceiro, oficina de estética, mecânico). Com o objetivo de no futuro inseri-los no mercado de trabalho. Queríamos mais, sim claro, mas  a resposta é “Não”! “Sabem, as pessoas não querem misturas”. 
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E então querem continuar?! A mim chega-me e esgota-me, espero que também baste e esgote os “faladores”!
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3. A Guerra com a Sociedade Civil
 
Afinal é aqui que teremos de concentrar a nossa atenção. Estes são os aliados/as que precisamos. Os pais/mães “não querem misturas”, os donos/as de empresas “não querem misturas”, afinal onde estamos a errar? E sim, já fizemos formações, reuniões, conferências, ações de sensibilização, envolvimento comunitários, provas de capacitação, mostramos que estas pessoas são válidas e um contributo para a sociedade. Continuamos a ouvir NÃO! Mas entrar em guerra de nada nos serve! Que dirão os “faladores” sobre isto?
 
 
4. A Guerra com Escolas e o Sistema Educativo
 
Tenho tido a sorte de estar no terreno, nas escolas, na formação de professores, no Terceiro Sector e o quadro é o mesmo. “Fazedores” e “faladores” em confronto! E meus amigos e minhas amigas, assim nunca chegaremos ao caminho da Inclusão!
Há uma grande luta no ar, luta que defendo desde de que me conheço como profissional. E não, não sou treinadora de bancada, sou a pessoa que está no terreno e sei. Preferia não saber, mas sei como são tratados as crianças e jovens com NE, em algumas Escolas por esse país fora.
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Sei, não porque me contaram, sei porque vi e vejo. Sei porque me parte o coração. Sei porque tive de as defender e lutar por eles/as para poder dormir com a consciência tranquila à noite. Por isso me dói tanto quando sugerem que o que faço não é Inclusão.
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Caros pais e mães, se a Escola fizer bem o seu papel, as Instituições que não se rejam por novas práticas fecharão portas. E assim será. As Instituições serão o menor do vosso (nosso) problema. Ninguém obriga os pais a colocarem os filhos nas instituições, ou obriga? Por isso concentremos a nossa atenção aqui: Na Escolaridade Obrigatória! O que já vivi e vi nas Escolas deixará qualquer um horrorizado. Frases como:
 
“Eu não quero aquela coisa na minha sala”
 
” Estes seres não deviam estar aqui”
 
” Eu até tento, mas repugna-me”
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Ecoam por ALGUMAS reuniões  e ALGUMAS salas de professores/as.
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Estas expressões, mostram bem o que pensam ALGUNS docentes, quais as suas representações sobre as NE. E estas verborreias são ditas sem censura, porque quem as diz, não se retrai nem um pouco de as dizer! Mas a estes pelos menos ninguém os crítica, sabem porquê? Porque são os primeiros a dar palmadinhas nas costas dos pais/mães e diretores/as. São consensuais. Toda a gente gosta deles, simplesmente porque andam ao som da corrente e não dão pedradas no charco. Nem são “fazedores” nem “faladores”, mas são estes que avaliam e são estes os que são ouvidos pelos “faladores”.
Salvaguardo no entanto, os BONS professores/as que existem por esse Portugal imenso. Lutadores e nobres, porque se importam, mesmo quando são abalroados! 
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Meus amigos/as chega!
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Ou remamos todos para o mesmo lado, ou à Inclusão, nunca lhe poremos a vista em cima! Podem mudar as leis, pode mudar o mundo, mas na verdade o que tem de mudar são as mentalidades!
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E só a convergência de opiniões consegue esse feito!
 
A Inclusão não se escreve, faz-se, e faz-se de tentativa e erro, todos os dias. E quem sequer tenta, devia ter o todo o nosso crédito, porque são essas pessoas “fazedoras” que tal como os vossos filhos/as, são alvos fáceis de exclusão! Mas também serão essas pessoas que farão mudar o mundo!
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 Desculpem a frontalidade, mas pensem nisso!
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Kiss, kiss!  Bang, Bang!
celmira

Escola de Pais.NEE premida nacionalmente como ES+

 

Cinco anos depois de implementada a primeira formação Escola de Pais.NEE em Bragança (2009), mais de 500 famílias foram já formadas com base neste Modelo. Formamos também mais de 100 formadores e, através do livro estão já envolvidas no projeto mais de 2000 pessoas.

Cinco anos depois de me terem dito que formar famílias era discriminá-las.

Cinco anos depois de muitas críticas de “Especialistas” na área, que se contorciam em atribuir-lhe caraterísticas que esta formação não tem, só porque se chamava “escola”. Sem terem o cuidado de perceber que não assenta numa visão reducionista de currículo e sim na partilha entre pares e nas necessidades e interesse das famílias que dela beneficiam.

Mais que uma formação, e Escola de Pais.NEE é uma filosofia de vida! E foi inovadora em Portugal! E não, não resultou de uma mente brilhante de algum grande teórico ou catedrático! Resultou minha mente, humilde e baça!

Às críticas respondo apenas assim: como todos os projetos inovadores, este também encerra as premissas de Arthur Schopenhauer, fazendo um paralelismo com as grandes verdades. Primeiro são ridicularizadas, depois, violentamente contestadas e finalmente aceites como evidentes.

E a evidência chegou.

No passado dia 21 de Janeiro, o projeto de Formação Parental – Escola de Pais.NEE  foi reconhecidos como projeto ES+, no âmbito da Conferência “Mapa de Inovação e Empreendedorismo Social”, desenvolvida pelo Instituto de Empreendedorismo Social – Social Business School e pelo Instituto Padre António Vieira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

A distinção visou sinalizar projetos e iniciativas a nível nacional e internacional com “Alto Potencial de Inovação e Impacto Social”.

Num total de 4466 projetos a nível nacional, somente 134 foram selecionados e eu fui a única empreendedora social a arrecadar dois prémios. Nada mau!

Estes projetos estão agora compilados num livro, que serve como uma plataforma de consulta para investidores, que vejam no empreendedorismo social uma oportunidade de mudar a sociedade através de um investimento de dimensão social.

Espero que o selo ES+ sirva para tornar evidente a necessidade de formar as famílias e replicar esta formação . Claro que do ponto de vista do empreendedorismo social que sirva então para cativar mais parceiros e investidores na disseminação da Escola de Pais.NEE por todo o país e além fronteiras.

Um abraço muito apertado a todas as famílias, com quem muito aprendi e aos profissionais formados por mim, ou os que através do livro têm vindo a dinamizar estas formações pelo país inteiro:

– Bragança (2009)

– Alfândega da Fé (2010)

– Mirandela (2011)

– Macedo de Cavaleiros (2012)

– Ilha Terceira (Açores) – Formação de Formadores (2012)

– Alentejo – Formação de Formadores (2013)

– ISCE Mangualde – Formação de Formadores (2012)

– ISCE Felgueiras – Formação de Formadores (2012-2014)

– Lousada mini Formação de Formadores (2014)

 

Próximas Formações:

Mogadouro (Fevereiro de 2015)

Ilha do Pico – Ações (Fevereiro 2015) – Formação de Formadores

 

Tem interesse em participar ou dinamizar esta formação, contacte: celmira.macedo@leque.pt

Tem Interesse em adquirir o livro contacte o geral@leque.pt

 

Kiss, Kiss! Bang, bang!

celmira

Em busca da autonomia na deficiência.

 

Uma das mais completas reportagens sobre a Associação Leque (Cortesia Patrícia Cancela – Porto Canal). Porque todos os dias são dias de ser solidário e de fazer o bem (de preferência bem feito)! E o fazer o bem, bem feito significa lutar todos os dias pela autonomia e autodeterminação destas pessoas. Sejam os pais/mães ou sejam os filhos/as.

 

Pela autonomia e Inclusão Social! Sempre!

 

 

 

Kiss, Kiss! Bang, bang!

celmira

Celmira, a mulher que põe tudo a mexer quando tudo parece imóvel!

 

“É uma mulher invulgar. Com uma força que lhe ferve nas veias e que transborda pelo corpo, pelo sorriso, pela velocidade com que fala, pelo modo como põe tudo a mexer quando tudo parece imóvel” (por Sónia Santos).

Esta é a frase inicial deste artigo do Jornal de Notícias de Maio de 2012, sobre Lutadores. De tudo o que foi dito, e que ainda hoje se mantém atual, diria que quase parece que a jornalista me conhece há anos.

Como já disse muitas vezes sou uma sortuda, ser tão acarinhada e reconhecida!

 

 

Kiss, kiss! Bang, bang!

Celmira Macedo

5 passos para ser um formador/a de sucesso

 

Já pensou porque é que os pais/mães têm alguma renitência em frequentar formações? Será que existem estratégias para os “prender” à formação que queremos que frequentem e entendemos como importante?  Eu acredito que sim! As dicas que apresento em seguida vão dirigidas aos formadores que queiram otimizar as suas competências como formadores de famílias e cuidadores de pessoas com Necessidades Especiais, no entanto, e como são muito abrangentes podem ser utilizadas em qualquer formação.

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Primeiro Passo: Cative

O início da formação é determinante no efeito a ter nos formandos/as, pelo que se recomenda dar particular atenção à primeira sessão. O segredo da conquista dos formandos/as, à laia do que foi escrito no eterno livro de Antoine de Saint-Exupery (2008), O Princepezinho, é cativar. Os formandos/as têm de ser cativados desde o primeiro dia. Devem sentir que dia após dia cada sessão será igualmente interessante e desafiadora. Logo na primeira sessão deve ser estabelecido, em conjunto, um compromisso de frequência, bem como se devem dar a conhecer a estrutura da formação e regras a seguir.

Quanto ao formador/a, é importante que seja uma pessoa empática, simples, com sentido de humor, com capacidade de comunicar e sobretudo de ouvir. Os formandos/as devem sentir que são ouvidos e compreendidos, sem culpas ou acusações. Nenhum formador/a terá a capacidade de passar uma mensagem positiva e normalizante das pessoas com necessidades especiais, se ele próprio não acreditar nisso – este será seguramente o primeiro percurso de um formador/a na Escola de Pais.nee.

O mesmo se refere à aplicação do Programa de Educação Emocional. O formador deve, no momento da formação, dominar esta área e estar bem consigo próprio, ou seja apresentar-se estruturado ao nível emocional, pois no decorrer da formação, existirão momentos que sendo dolorosos para as famílias, requerem do formador um grande domínio e gestão emocional, nomeadamente quando se falar do impacto do diagnóstico e das questões do luto. Certos de que esta imersão ao mundo da família trará ao formador muitos ganhos, enquanto pessoa e enquanto cidadão.

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Segundo Passo: Avalie!

No sentido de dar credibilidade á sua formação avalie! Deve definir logo no inicio da formação, quais as melhores formas de avaliação e respetivos instrumentos. O mesmo se refere às atividades, muitas resultam com um grupo, mas nem sempre são eficazes com outro.  mediante as especificidades encontradas no conjunto de indivíduos que frequentam a escola e que define o seu todo. Será este ajuste que ditará o sucesso de cada formação, em cada contexto específico.

 

Terceiro Passo: Faça uma boa gestão do tempo e do espaço

Deve ser escolhido um lugar que assegure a privacidade dos formandos/as. Estes devem sentir-se livres de expressar as suas ideias, sem distratores e sem serem interrompidos. As cadeiras devem ser cómodas. A disposição das mesas e cadeiras deve ser circular, pois assim oferece igual importância a todos os elementos, incluindo o formador/a. Ninguém está em vantagem, na formação estão todos no mesmo patamar. Esta colocação também facilita que as discussões sejam mais francas, mais abertas, porque cada pessoa pode facilmente ver o outro. Se o local não permitir a colocação circular das mesas, deverão ser colocadas em forma semi-circular. É muito importante que os formandos/as possam ver-se uns aos outros.

A hora deve ser a mais conveniente para os pais/mães e para o formador/a. As sessões à noite ou em horário pós laboral, são as mais convenientes. Sugerimos o horário entre as 18h30 e as 21h30, uma vez por semana. Assim os pais/mães terão tempo para refletir sobre as suas próprias necessidades e também para aplicar algumas estratégias sugeridas. A experiência indica-nos que os formandos/as manifestam dificuldades em sistematizar algumas ideias se foram tratadas demasiado rápido, por isso, mesmo que as atividades estejam programadas, o importante é que haja tempo para a reflexão e partilha entre todos.

A formação deve decorrer ininterruptamente durante os seis meses, ou seja, não aconselhamos interrupções superiores a duas semanas, primeiro, porque se perde o ritmo, depois, porque os pais/mães terão mais dificuldade em reajustar a formação na rotina familiar. O período ideal para a realização da formação será iniciar, por exemplo, em Janeiro para terminar em Julho.

 

Quarto Passo:Tenha em atenção o tamanho do grupo

Os benefícios do programa de formação parental são maiores quando cada formando pode fazer perguntas sobre o conteúdo; participar nos exercícios e no treino das habilidades; sintetizar o que aprendeu e o que se pensa fazer; partilhar as suas dúvidas e os seus problemas. Para que isto seja possível é sempre necessário gerir o tempo da formação, portanto os grupos devem estar limitados a 20 elementos.

 

Quinto Passo: Aposte na partilha entre pares

Deve-se lembrar aos formandos/as que o seu contributo é sempre válido, não existem respostas erradas, todas estão de acordo com o objectivo traçado, que é partilhar. Assim como, a exposição dos seus problemas na discussão de grupo, não é sinal de incapacidade como pai: pelo contrário, indica o desejo de melhorar e a vontade expressa de aprender. É importante que se enfatize que os temas tratados na Escola de Pais.nee se baseiam nos problemas típicos, com que se confrontam a maioria dos pais/mães.

 

Foi útil? Espero que sim!

 

Kiss. kiss. Bang, Bang!

celmira

 

 


Nota/  Informação retirada do Livro: “Escola de Pais.NEE- Guia de Formação Parental no âmbito das NEE” (Macedo, 2012) Edições Pedago. À venda na Associação Leque.

Quando a missão é fazer sorrir!

 

Quando a missão é fazer sorrir. Neste âmbito apresento-vos o projeto “Refeitório solidário – Refood” da Associação Leque.

Este projeto, apoiado pela Missão Sorriso tem duas vertentes:

1- Fornece refeições aos Utentes do CAAAPD da Leque. A associação Leque não tinha cantina e por isso candidatamos o projeto  à Missão Sorriso. Desde Novembro de 2013 os nossos frequentadores/as (utentes) passaram a ter dentro do espaço físico da Associação, um refeitório para fazerem as suas refeições.

2- Refood: Distribuição alimentar a famílias carenciadas

Para rentabilizar este recurso, estamos a trabalhar no combate ao desperdício alimentar com a parceria do Restaurante “S. Sebastião”  (Alfândega da Fé) e do Continente (Bragança). Estamos a distribuir 25 refeições gratuitas por semana e cabazes alimentares a famílias em situação de pobreza encoberta.

 

Seja Sócio ou sócia desta causa. Ajude-nos a fazer o bem, bem-feito! Saiba como em http://www.leque.pt

 

Kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

Escola de pais.nee, mais que uma formação: uma filosofia de vida

 

Como já referi muitas vezes o curso de formação Parental Escola de Pais.nee, é muito mais que uma simples formação: é antes de mais uma filosofia de vida.  Que outro efeito teria uma formação que marcou verdadeiramente a vida dos/as que a frequentaram? Que os/as capacitou ao ponto de arregaçarem mangas e criarem respostas sociais para os seus filhos/as?  Que lhes abriu os olhos para o conhecimento de si e dos que os/as rodeiam? Que lhes deu força e ânimo para prosseguir a jornada árdua, numa vida de desafios constantes? Esta que é a vida de quem vivencia de perto a deficiência.

Ao longo do tempo ir aqui partilhar testemunhos, de histórias vividas na primeira pessoa. Testemunhos de gente com gente dentro. Gente resiliente, gente valente de quem me orgulho de ter cruzado o caminho.

Este testemunho é da Manuela Gomes, 44 anos, Bragança. A Manuela foi uma das primeiras formandas deste projeto em 2009. Hoje é a Presidente da Assembleia Geral da Associação Leque! Na altura escrevia assim:

 

“A escola de pais.nee vai deixar saudade…

 Estamos a pouco mais de um mês para acabar a nossa escola de pais e eu já tenho saudades do nosso convívio semanal. Achei interessante partilhar com todos algumas diferenças que tenho observado no grupo.
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Temos pessoas que tomavam anti-depressivos e deixaram de o fazer, pessoas que entraram com ar envergonhado e que agora conseguem partilhar a sua experiência de vida, pessoas que quase nunca falavam (limitando-se a ouvir) e hoje falam das coisas boas e más, como se nos conhecêssemos desde sempre.
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Mas o que mais me impressiona é ver o brilho nos olhos que algumas pessoas mostram agora e que, outrora não possuíam, a serenidade e a paz interior que agora demonstram.
Por tudo isto, esta experiência têm sido uma das melhores coisas que me aconteceu.
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Obrigada a todos os formandos pelos bons momentos, pela partilha e pela amizade e à formadora Celmira por nos ter proporcionado esta experiência.
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É como uma segunda família e eu tenho muito orgulho por fazer parte dela.
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E a falta que esta Escola me vai fazer!!”

 

Manuela Gomes (SEXTA-FEIRA, 6 DE NOVEMBRO DE 2009)

 


 

O que a Manuela na altura não sabia é que iriamos continuar juntas nesta luta até hoje! <3

kiss, kiss. Bang, bang!

celmira