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O dia em que ouvi uma voz no corredor (por Ana Beja)

 

Estava sentada no sofá da sala, a ver televisão, quando ouço a voz de um homem vinda do fundo do corredor. Primeiro não liguei, entretida com o que estava a ver, mas a certa altura, quando me apercebo do som forte da sua voz, resolvo ir averiguar, pois tinha a certeza de que só estava em casa com o meu filho mais velho. Saio da sala, percorro o corredor e o som é cada vez mais grave e forte. E próximo…Passo pelo quarto da minha filha, vazio e chego ao quarto dele. O som está ali. Vem dali, penso eu. Abro a porta e era o meu filho. Ao computador com um amigo. A voz forte que ouvia era a dele. Fico atordoada. Apercebo-me nesse momento que o meu filho deixou de ser um menino e passou a ser um rapaz! Apercebo-me que o miúdo loiro e pequenino, que tanto chamava pela mãe, está um adolescente feito! Com 1m e 75cm e a pesar 70 kg!

Ele, espantado com a minha cara de pânico, pergunta-me se estou bem. Estou bem?? Como é que eu posso “estar bem” se ainda ontem lhes mudava as fraldas e lhes dava papas de arroz sem glúten e hoje já tenho de lhes comprar Clearasil e máscaras de argila para as borbulhas? Não estava preparada para isto!

Dás-te conta que 15 anos passaram a correr e que toda a gente te avisou para “os aproveitares enquanto são pequeninos” e pensas “que exagero, passam lá agora!” e acreditas que irão ser sempre os teus bebés, fofos e reboludos, e de repente, como que por magia, estás a viver o refrão do “Não há estrelas no céu”, do Rui Veloso, na tua casa!

Dás-te conta que estão a crescer e que lentamente cortam o “cordão umbilical” quando te pedem para irem de fim de semana com os amigos, quando te dizem para os deixares 3 ruas acima da porta da escola, quando se envergonham de te dar beijos em público e quando te pedem para não ires assistir aos eventos desportivos que praticam, porque “vais ser a única mãe na bancada”!

Dás-te conta que afinal já tens 2 adolescentes em casa (ela só tem 1 ano a menos) quando não ouvem nada do que dizes e tens de pedir 15 vezes para arrumarem os quartos (sob ameaças, castigos e chantagens). Apercebes-te de que eles estão a crescer, porque já estás fora de moda, pois as “amigas é que têm estilo” e que nunca te soubeste maquilhar porque não tinhas os tutoriais fantásticos para o efeito, no youtube. Dás ainda conta que afinal não percebias nada de computadores e dispositivos móveis, pois dão-te dez a zero no manuseamento dos mesmos!

Dás-te conta que estás a ficar mais velha e que eles estão a crescer, quando olhas pela janela e já não os vês a brincar às escondidas com os miúdos do bairro, quando já não te chamam a meio da noite porque estavam a ter um pesadelo e quando já não vais com eles comprar o material escolar. Quando já não querem ir contigo a lado nenhum, mas sim ao cinema com os amigos. Quando já não querem coca-cola e te chateiam para beberem uma Radler. Quando já não andam à bulha no sofá para se sentarem ao teu colo, mas te pedem dinheiro para saírem à noite com os amigos e então depois, quando chegarem, sentam-se um bocadinho contigo no bendito sofá. Reparas que estão enormes quando já não te lembras da última vez em que entraste na Zara Kids, quando demoram 1 hora a tomar banho e “entornam” o frasco de perfume pela roupa abaixo! Quando começam a fazer a barba, a enrolar o cabelo com um ferro quente e quando batem com a porta do quarto na cara um do outro, pois tudo é um verdadeiro drama!

Quando o choque passa, acordas… “pois é, já não são meninos! São os meus filhos… grandes. Que começam a ganhar asas e a querer voar”. E compreendes que tudo isto faz parte do ciclo da vida e que ainda bem que é assim. Que a vida está quase por conta deles e que irão errar e bater com a cabeça muitas vezes. Que vais passar para segundo, terceiro e quarto plano e que só muito mais tarde é que irão dar valor ao que dizias. Que daqui a 3 anos estão a entrar na universidade e a viverem sozinhos, num quarto, com uma cambada de colegas, em farras e noitadas quase diárias! E que só tens a casa cheia aos fins de semana para lhes lavar a roupa e preparares as marmitas com a comida para a semana! E quando esse dia chegar (que vai chegar à mesma velocidade como chegou o dia em que ouvi uma voz de homem ao fundo do corredor), olhas para trás e pensas que tudo isto passou a correr e que darias tudo para os voltares a ver, da janela, a brincarem às escondidas com os miúdos do bairro!

Ana Beja

Foto: http://revistadeciframe.com

 


 

kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

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Disse-me que já tinha vivido tudo… (por Ana Beja)

 

Disse-me que já tinha vivido tudo. E que tinha mais anos para trás do que para a frente. Também pouca diferença lhe fazia. O que teve de ser feito, fez. Agora era passado. Pretérito perfeito. Ou imperfeito, diria eu. Porque isto de se estar no fim da vida não deve ser nada fácil.

De olhar vazio na conversa, acrescentou que a vida passa num instante e que a devemos aproveitar todos os dias. Resta-lhe a fé. Companheira de longa viagem e herança deixada pela mãe. A única, também. Já que eram pessoas de parcos recursos, mas honestas! Eram 8 irmãos. Conheceu 6. Dois perderam a vida em pequenos. Foi aí que a fé preencheu o vazio do coração da mãe. Havia respeito. Todos se sentavam à mesa à mesma hora. O pai na cabeceira. A mãe ao lado. Primeiro a mãe servia o pai. Depois os filhos. Por ordem decrescente. No fim sobrava-lhe o resto. Sempre chegou para todos. Afirmou com a voz segura.

Não estudou. Não havia tempo para estudos. Também nunca fui muito bom com letras. Sei o essencial, afirmou. Fui até à 4º classe com o Professor Silvério e levei muita canada! Ainda hoje as letras se embaralham…mas já deve ser dos olhos…94 anos a puxar por eles! A idade pesa, sabe? Diz-me ele de olhar posto no horizonte. O tempo encarrega-se disso. Já não sou o que era. O corpo começa a dar sinal, pouco a pouco. Primeiro é uma dor aqui, depois outra ali…remédio para isto, remédio para aquilo…mas não há medicação que nos cure da velhice. E dela não podemos fugir! Aparece devagar, quase nem se dá por isso. Antes lavrava um pedaço de terra enquanto o diabo esfregava um olho! Agora está aqui tudo por lavrar. Se a minha Maria visse uma coisa destas…Já partiu faz agora 17 anos. Fiquei sozinho desde que ela foi. Perdi a minha companhia. Fui-me abaixo desde que ela foi para o céu. Sim, que a minha Maria foi para junto Dele.

Os filhos têm as vidas deles. Pouco querem saber disto. Tenho dois na Alemanha e uma na Suíça. Vêm cá no verão. Para as festas da aldeia. Eu nem saio nesses dias. É cá um barulho! Mas gosto que venham cá, diz agora com o rosto iluminado. É a primeira vez que lhe vejo o sorriso. Aberto, enrugado e queimado pelo sol. Despeço-me com um abraço. Agradeceu por o ter ouvido. Já quase ninguém me ouve, terminou. Eu ficaria ali a ouvi-lo até quando lhe apetecesse. Prometo que se um dia lá voltar o irei procurar. Respondeu que ficará no mesmo lugar. À espera. Não de mim, mas do dia em que voltará a ver a sua Maria.

Ana Beja


 

Kiss, kiss. Bang, bang

celmira

 

Ser-se perfeitamente normal é chato (por Ana Beja)

 

Ser-se perfeitamente normal é chato. É tal e qual como a água. Sem sabor. Mas isto de ser-se normal também é um conceito muito básico! Ao fim ao cabo, ser normal é um verdadeiro aborrecimento, pois é na diferença que está o verdadeiro brilho. A verdadeira essência. Pelo menos é a minha opinião! E vale o que vale!

 

Nos últimos dias, a propósito de um atleta olímpico que decidiu mudar de sexo (aos 65 anos, por não ter conseguido viver mais na mentira) que tenho ouvido palavras como transsexualidade, identidade de género, orientação sexual, homossexualidade, entre outras e tenho constatado que ainda reina o preconceito e o julgamento. O preconceito de quem acha que tudo isto é “contra natura” e o julgamento de quem não compreende como é que se pode mudar de sexo ou vestir-se de mulher, quando na realidade se nasceu homem!

 

Que raio?!! Mas afinal, não somos todos seres humanos? Não nascemos todos da mesma maneira? Não temos todos cabeça, tronco, membros? Coração?? Não somos todos providos de sentimentos? E de sofrimento, também! Imaginem a infelicidade de alguém, que nasceu homem, mas que se identifica como mulher, e tem de enfrentar uma série de padrões impostos pela sociedade. Já imaginaram a luta interior de alguém que tem de se assumir perante uma sociedade preconceituosa e pouco tolerante? Imaginem serem alvo de gozo, de desprezo, de indiferença e indignação, simplesmente por gostarem de pessoas do mesmo sexo?

 

Já pensaram na angustia, na vergonha e no sentimento de culpa com que estas pessoas se debatem diariamente? Já não é uma pena tão pesada? Quem sou eu para julgar alguém? Não deve ser fácil viver na pele que não se sente. Não é fácil fingir o que não se é. Quem gosta de viver rodeado de rejeição ou pensar que os seus sentimentos são inadequados e impróprios, só porque não faz parte do mesmo “clube dos outros”?

 

O que é que interessa se o Zé gosta do Zé, se a Maria gosta da Maria ou se a Maria quer ser Zé? Não são os nossos atos que nos definem? O nosso caráter? Não é a maneira como nos relacionamos, a forma tratamos os outros e o respeito pela liberdade que nos caracteriza enquanto pessoas? Ou são as nossas opções individuais? Os nossos gostos? Porquê que o facto de não me sentir bem na minha pele e de querer uma mudança, poderá condicionar e influenciar a minha vida enquanto ser humano? Porquê é que por ser homossexual me está vedado uma série de direitos, aos quais teria livre acesso, caso fosse heterossexual?

 

Tenho pena que ainda existam tantos preconceitos em relação ao que muitas vezes se acha “fora do normal”. Considero que aquilo que nos define são as nossas atitudes e não as nossas orientações sexuais. Considero que o que faz de nós Seres Humanos é a capacidade de aceitar o outro e respeitá-lo. Tal e qual como é. Sem filtros ou julgamentos. Até porque seja qual for a matéria que nos compõe, duma coisa tenho a certeza… é que por dentro somos todos iguais!

Ana Beja

 


 

Beijinhos Ana e Obrigada por mais um texto ❤

celmira

Pedras no caminho? Construam pontes (por Ana Beja)

 

Tenho assistido com algum pavor às notícias dos últimos tempos. Chego a pensar que tenho de dar razão aos mais velhos quando os ouço dizer que isto é o fim do mundo!

Ver o telejornal à hora do jantar é um ato verdadeiramente corajoso e com o qual me tenho confrontado nestes tempos. Já pensei em mudar o canal para o Discovery Channel e assistir à invasão dos gafanhotos no Deserto do Saara. Pelo menos não me irrito tanto e até me acalmo (com o barulho dos bichinhos).

Mas o que se passa connosco?? Estaremos a ficar todos doidos?? Que raio de liberdade é esta em que dizemos e fazemos tudo o que nos dá na real gana, arrastando e derrubando o que nos aparece pela frente, sem olhar ao mal que estamos a fazer? Para onde foi o respeito, a solidariedade e a amizade? Onde andam os valores? Será que ( tal como tantos portugueses) emigraram para outro país ou continente?

Numa sociedade onde se prega tanto sermão e roga tantos rosários, onde nos achamos no direito de opinar sobre a vida dos outros e sobre tudo e mais um par de botas (mesmo não percebendo patavina do assunto) onde a informação é a primeira a chegar, como se pode assistir a tanta doidice e falta de juízo? À hora do almoço não é diferente da hora do jantar…parece o “Crime”, só que na versão ao vivo e a cores: “pai atira sobre…”, “vizinho mata…”, “mãe afogou…”, “colega de escola mata…” e nem escrevo o resto, pois o resto toda a gente já sabe. A última que ouvi (e esta vou escrevê-la toda) foi “homem mata por causa de uma bola de berlim”. Será possível, pensei eu? Estarei a ouvir bem? Não só ouvi, como li, pois estava escrito em letras garrafais no ecrã da televisão onde costumo almoçar. Estava para comer dentro do estabelecimento, pois estava um vento maluco, no entanto, não há estômago que aguente estas notícias e preferi ir para a esplanada levar com o vendaval!

Custa-me ver a falta de auxílio, de proteção, a falta de solidariedade. Custa-me ver pessoas que não cumprimentam, que não apertam as mãos, que não dão um sorriso ou um abraço, que não dão a vez a alguém da fila, que não seguram a porta ou que não se levantam da cadeira para dar lugar a quem mais precisa. Será que a sociedade entrou em falência emocional?? Estaremos todos na bancarrota?? Porque será que andamos tão irritados? Parece que andamos todos zangados uns com os outros, que só temos direitos e nenhuns deveres e que toda a gente nos deve e ninguém nos paga! Não sei como será daqui para a frente, mas se é assim o agora, imagino o amanhã!

Tenho pena que a sociedade esteja desta maneira. Que não exista tolerância entre nós, que não se respeite o próximo, que se devasse a vida alheia, que se mate, espanque, abuse e acuse com uma leveza tão grande como quem mata por uma bola de berlim! Será que se nos puséssemos no lugar do outro e parássemos para pensar no sofrimento que estamos a causar, o mundo não seria bem melhor? Se deixássemos de olhar só para o nosso umbigo e passássemos a olhar para o do outro, não seríamos mais felizes? De certeza que sim, até porque penso que a verdadeira essência da felicidade consiste em fazer os outros felizes!

Termino, parafraseando Pessoa, e apesar da alteração da ideia, não tenciono o desprestígio da mesma: Pedras no caminho? Apanhem-nas todas. E em vez de um castelo construam pontes. E atravessem-nas. Para que possam sentir, nem que seja por um momento, o que é estar do outro lado!

Ana Beja

Foto: http://line-sweet-home2.zip.net/images/A_pedra_no_caminho.jpg


 

Kiss, kiss! Bang, Bang!

celmira

Deus me livre do dia em que deixar de acreditar nas pessoas (por Ana Beja)

 

Sempre me considerei perseverante. Caçadora de sonhos e castelos no ar. Irremediável fantasista, fazedora de coisas e otimista ingénua, acreditando que todos somos bons e justos e que o ser humano é imperfeito, mas que essa imperfeição nos conduz à sabedoria e ao enriquecimento.

Acredito no poder das pessoas. Na sua força e capacidade. Na vontade de mudar o mundo e transformar mentalidades. As pessoas inspiram-me. Principalmente aquelas que conseguem revirar o seu destino. Que não se acomodam com o razoável e que mesmo sem verem a luz ao fundo do túnel o atravessam. No escuro e sem medo. Muitas vezes com as pernas a tremer, mas atravessam-no. Derrubam barreiras e transpõem pontes. Às vezes mal conseguem andar, mas a força de lutar é maior do que qualquer outro sentimento derrotista e fraco.

Gosto de pessoas que não desistem. Que vão à luta. Pessoas que caem vezes sem fim mas que se levantam. Pessoas que renascem cada vez que batem no fundo. Que aprendem com os erros e batem com a cabeça, usando-os para as fortalecer e criarem crosta. Com erros que as moem mas não as matam.

Essas pessoas são especiais. Têm luz própria e são possuidoras de uma energia contagiante. Brilham em cada gesto que fazem e tempestade que defrontam. E estão sempre intermitentes. Sempre prontas e em alerta para desbravarem mais um caminho curvo e sinuoso, onde o mais pequeno deslize as faça despistar e sair do trilho. Estas pessoas não aceitam meias verdades, não ficam com as coisas pela metade nem brindam a olhar para um copo meio vazio. Falam com o coração nas mãos, de peito aberto e dando alguns pontapés na gramática, pois pouco lhe interessam as palavras polidas, vazias e sem sentido.

Essas pessoas fazem-nos acreditar que há sempre esperança e que esta nunca é a última a morrer. Mostram-nos que as longas viagens começam com um passo e que enquanto não tivermos conhecido o inferno, o paraíso nunca será suficientemente bom para nós.

Deus me livre do dia em que deixar de acreditar nas pessoas e de me inspirar nas suas vidas. De aproveitar as suas lições e de ver que a persistência realiza o impossível. Não nos esqueçamos de que as torres mais altas nascem do chão e que há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.

Ana Beja


Subscrevo: Deus me livre do dia em que deixar de acreditar nas pessoas e de me inspirar nas suas vidas.

Kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

Memórias. Passamos a vida inteira a criar memórias (por Ana Beja)

 

As memórias são como um livro. Ou um diário. Bem guardado. Uma caixa de pandora arrumada numa gaveta e fechada a 7 chaves.

Quem não tem memórias? Quem não relembra com saudade o tempo que já viveu? Ninguém nos apaga a memória. Ela é nossa. É pessoal e intransmissível. E podemos contar ou não as nossas memórias. Elas são capítulos da nossa história. E nesses capítulos, as personagens, os lugares e as situações vão-se alterando.

Eu gosto de contar as minhas histórias. Gosto de me lembrar do que já passou e do que já vivi. Muitas vezes, quando viajo por alguns capítulos, relembro-me de pessoas que infelizmente já não fazem parte das minhas histórias, mas que estão sempre presentes na minha memória. E por isso perpetuam no tempo.

A perda dessas pessoas é insubstituível. Deixam-me no vazio sempre que penso que já não estão no meu presente. Transformam a dor numa sensação de incapacidade, num poço sem fundo ou caminho sem retorno, num desejo infinito de fazer recuar o tempo e de as trazer de volta para ao pé de mim…

Se eu mandasse no tempo, este nunca teria fim. Seriamos eternos. Não havia ditados como “para morrer só é preciso estar vivo”, nem “antes a morte que tal sorte”.

No entanto, e graças ao poder de recorrer à minha memória, as pessoas das quais eu tenho o coração cheio de saudade, voltam a ganhar voz e movimento. Voltam a ser parte de mim. Ganham vida. E muitas vezes, em vez da lágrima que já espreita, solto uma enorme gargalhada ao pensar no que vivi com elas. E na honra que tive em fazer parte das suas vidas.

Já perdi algumas pessoas que me eram (e são) muito queridas, no entanto, a grandeza de as recordar fazem com que essas memórias ganhem ainda mais sentido. Afinal, recordar não é viver? Então, e fazendo jus ao ditado (deste já gosto mais), criem-se memórias. Vivam. Riam. Sejam felizes. Aumentem capítulos à vida. Construam histórias. Aproveitem o melhor de cada momento.

Se pudesse construir uma nova história, cada uma dessas pessoas que estão no meu livro bem guardado, continuariam comigo a acrescentar capítulos. Como já não estão, resta-me recordá-los a todos e conservá-los com muito carinho na minha memória.

Este texto é dedicado a todos aqueles que já partiram e que farão sempre parte da minha história.

Ana Beja

 


 

Obrigada Ana.  ❤

Kiss, kiss! Bang, Bang!

celmira

 

 

Nasci no século passado – qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência (por Ana Beja)

 

Nasci em 1977. Em junho. Depois do São João. Na véspera, a minha mãe saltava a fogueira e comia sardinha pingada em broa e bebia gasosa para ajudar na digestão. Durante a noite, o meu pai muito aflito, bate à porta do quarto dos meus avós e diz: rebentou a bexiga à Bé!

Depois de alguma aventura (ou loucura) de malas, de entrar no carro, de ir para a maternidade, de sair daquela maternidade que a minha avó não gostou e dar entrada noutra, assim que a minha mãe se deitou numa maca, deu um berro e eu nasci!!! À hora do almoço já tinha mamado pela primeira vez e a minha mãe comia uma feijoada no quarto!

Vim para casa. A infância foi normal. O leite foi de lata e aos 3 meses já comia sopa com sal e azeite! Era careca mas mesmo assim levava com ganchinhos e fitinhas que as minhas tias (pouco mais velhas que eu) teimavam em colocar na minha cabeça parecida à do Ruca! Fui batizada com um vestido de renda de quase 3 metros e o meu nome foi igual ao da minha madrinha!

Cresci a brincar na terra, a fazer comida com paus e folhas das árvores, a brincar com as bonecas, a andar de triciclo, a deitar milho às galinhas. Fui para o jardim de infância aos 5 anos. Detestava beber o leite pela caneca azul de plástico. Fui logo nesse ano para a colónia de férias com os colegas do jardim. Toda a roupa era bordada com a inicial do nome. Um beijo da minha avó na despedida e um sorriso enorme à minha chegada.

 

Seis anos. “Escola primária. Primeira classe”. Cadeiras e mesas gastas, lareira na sala de aula (um luxo) giz e régua de madeira, também conhecida como “palmatória”. Crucifixo por cima do quadro preto e rezávamos o “Pai Nosso” antes de começar a aula. Só falávamos quando a Senhora Professora nos interpelava e nem sequer nos passava pela cabeça faltar ao respeito. “Cantávamos a tabuada”, escrevíamos 20 vezes as “palavras difíceis” e levávamos reguadas por cada erro ortográfico. Só tínhamos aulas à tarde (de manhã ficávamos em casa) e nos intervalos jogávamos à macaca, à apanhada, às escondidas e à bola com os rapazes! Tiravam-nos poucas fotografias. Não abundavam as máquinas fotográficas. O dia em que andávamos mais bem vestidos era o dia em que o fotografo ia à escola.

1986…o meu avô compra uma televisão a cores! Ainda hoje me lembro desse dia maravilhoso em que os meus bonecos preferidos ganharam cor!

Andávamos sem cinto nos automóveis, onde muitas vezes nem víamos os nossos pais devido ao fumo dos cigarros (fumava-se em todo o lado). Brincávamos na rua desde manhã até à noite, cumprindo à risca a hora do almoço e do jantar (sob pena de levarmos umas lambadas por não estarmos a horas às refeições). Bebíamos “caprisone” e comíamos bombocas. Andávamos de bicicleta pela via pública, matas e afins sem capacetes nem joelheiras! E muitas vezes sem travões!!

Dez anos. “Ciclo preparatório”. Pré fabricado e com alguns tetos em amianto. Ninguém nos levava nem trazia à escola. Andávamos todos a pé e era uma aventura! Não se viam pais na escola nem filas de carros à espera que saíssemos para nos levar para casa. Primeiros namoricos por carta e sem remetente…tal era a vergonha!!! Jogávamos às “4 esquinas”, ao “elástico” e ao jogo das palavras (nomes, animais, profissões). Já adiantávamos o almoço ou o jantar e passávamos a roupa a ferro. Ao domingo vestíamos roupa bonita, almoçávamos fora e depois dávamos o tradicional passeio de carro, conhecido pelo “passeio domingueiro”.

Íamos quinze dias para a praia, apanhávamos enormes escaldões, apesar da gigantesca bola azul da “Nívea” se ver pela praia toda e arredores. Nunca se fazia a digestão e todos os dias comíamos um gelado. O meu preferido era o “Fizz” de limão! Víamos os “Jogos sem fronteiras”, o “Justiceiro – Michael Knight”, e tempos depois o “Macgyver”. Dormia-se com as janelas e varandas abertas, tal era o calor no verão! Passávamos temporadas com os nossos primos em casa dos avós, na aldeia, onde partíamos braços e cabeças, esfolávamos joelhos, andávamos descalços, nadávamos no rio, percorríamos as matas e roubávamos a fruta das árvores.

 

  1. “7º ano do unificado”. Passo para o liceu onde fico até ao 12º ano. Tinha “cartão livre” (podia sair da escola sempre que me apetecesse). Não havia aulas de substituição nem salas de estudo ou aulas de apoio, caso o professor faltasse. Para irmos ao bar levávamos primeiro uns “cartolos” dos alunos mais velhos. Podia-se fumar na escola. Os balneários do pavilhão de ginástica nunca tinham água quente. Íamos para a rua se fizéssemos asneiras. Raramente os pais eram chamados ao diretor de turma. Tratava-se dos “assuntos” logo na hora e a coisa ficava por ali. Fazíamos greve às aulas. Fechávamos a escola a cadeado…afinal fomos a “geração rasca”da Manuela Ferreira Leite!

 

Andávamos sempre à boleia. Quem tinha mota era “um senhor”!! Não havia quase ninguém com carro. Quem tinha, transportava a turma quase toda para os “piqueniques” que fazíamos nas redondezas!

Trabalhava nas férias grandes para ter dinheiro para as minhas coisas (desde os 15 anos). Trabalhei na cafetaria da Portugal Telecom, lavei carros, pus gasolina, rapei ervas, vigiei matas e fui monitora de campos de férias. Comprei o meu primeiro rádio portátil com leitor de CD, na loja da “Singer”, aos 16 anos. Caríssimo na altura, mas era para isso que trabalhava! Quando cheguei a casa com aquele “portento”, o meu irmão delirou! O primeiro CD que tocou foi o que vinha de oferta com o respetivo “portento”!

Aos 18 anos termino o liceu. Nessas férias grandes tiro a carta de condução (à noite). O meu primeiro carro foi um Fiat 127 castanho. Um carrão!! O vidro do lado direito não abria e tive de forrar a manete das mudanças com um lenço, pois estava a desfazer-se! No rádio só dava uma estação. Gravava cassetes que tocavam sem parar (até enrolarem a fita)!

Iniciei o curso superior em 1996. Em 2000 estava a trabalhar.

Passados estes anos estou a escrever este texto e não posso deixar de comparar como se viveu e cresceu no “século passado” e como se vive e cresce atualmente. Realmente os tempos mudaram. Não sei se para melhor ou para pior. Talvez tenhamos melhorado em alguns aspetos. Noutros nem por isso. Saudades desse tempo? Muitas!! E o que é certo é que se olharmos para trás…qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência!

Ana Beja

 

 


Somos duas! ❤

celmira

As amizades verdadeiras são como as pedras (por Ana Beja)

 

As amizades verdadeiras são como as pedras. E por mais que água mole bata em pedra dura, não furam! As amizades verdadeiras são aquelas que não se precisa de falar para se entender o que o outro quer dizer. Basta um olhar, uma expressão ou o simples silêncio para perceber o que se quer dizer. Para sentir como bate o coração do outro.

 

As verdadeiras amizades não precisam de likes nem comentários no facebook. Não precisam de SMS nem de chamadas constantes. Os amigos verdadeiros aparecem nos piores momentos da nossa vida, juntam-se a nós nos momentos de alegria e felicitam-nos gratuitamente e sem inveja pelas nossas vitórias ou conquistas. Apoiam as nossas decisões, levantam-nos quando caímos e ajudam-nos a voltar a encontrar o rumo quando muitas vezes saímos dele.

 

Os verdadeiros amigos realçam as nossas virtudes e apontam-nos os defeitos. Discordam connosco, não nos dão razão quando não a temos e fazem-nos acordar muitas vezes para uma realidade que não queremos ver. Zangam-se quando erramos mas perdoam com facilidade. Muitas vezes nem é preciso pedir desculpa. Basta voltarmos a falar e tudo ficou esquecido. Passado. Sem moças ou rancores. Sem lambadas de luva branca nem sede de vinganças.

 

Os verdadeiros amigos guardam os nossos segredos. Ouvem os nossos pecados. Assumem as nossas dores. Choram connosco. Riem-se de nós. Lembram-nos das palermices que fizemos juntos. Dos tempos da juventude irreverente e das experiências próprias da idade. Das baldas às aulas. Das festas nas garagens. Das “noites de estudo” em casa de alguém…

 

As amizades verdadeiras perduram no tempo. Ou nem têm tempo ou validade. São intemporais. Não acabam. Aumentam. Acrescentam. Crescem connosco e envelhecem da mesma maneira e ao mesmo tempo. Atravessam meses e anos, sempre lado a lado. Ajudam-nos a construir sonhos e a derrubar barreiras. A transpor obstáculos. A atravessar pontes. A voar mais alto e a cair com rede.

 

As amizades verdadeiras são feitas de histórias e de momentos. Histórias das nossas vidas e de momentos que perduram e ficam para sempre na nossa memória.

 

Estas amizades são raras. Não abundam. São joias preciosas. E é por isso que guardo muito bem este tesouro, pois quem tem verdadeiros amigos é dono da maior riqueza do mundo!

Ana Beja

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Bem verdade Ana. ❤

Kiss, Kiss. Bang, bang!

celmira

 

Sou pelas palavras! (por Ana Beja)

 

Sou pelas palavras. Gosto de falar e de pessoas que falam. Pessoas que dizem o que pensam e o que sentem, sem ferir nem magoar. Gosto de pessoas frontais, sem rodeios, com ideias simples e claras.

Não gosto de floreados, de falar nas entrelinhas, de meias palavras, de indiretas.

Gosto de quem fala olhos nos olhos, quem nos encara pela frente e que nos diz a verdade por muito que doa.

Gosto de abreviar. Dizer logo o que há para dizer. Não ficar engasgada.

Gosto de desabafos. Mesmo aqueles com a voz embargada. Gosto de quem fala com o coração e nos toca na alma. E para isso há que saber ouvir. Ouvir as palavras do outro. Senti-las e torná-las nossas, nem que seja por um  momento. Gosto de quem sabe guardar palavras. Aquelas que muitas vezes nos saem em desabafo e com a tal voz embargada e que só partilhamos com quem sabemos que nunca as vai repetir.

Gosto do som das palavras. Do tom, da entoação, do timbre. Gosto de mesas onde se fale. Não gosto do silêncio de uma mesa cheia. Gosto de ouvir quem sabe falar. Não gosto de pessoas sem palavra. Que as usam de boca cheia e pensam que palavras leva-as o vento. Gosto de palavras úteis.

 

Que constroem.  Que nos ajudam.

 

Sou pelas palavras. Sempre

 

 Foto: http://www.prodecor.pt/


 

Kiss. kiss. Bang, Bang!

celmira

Quem nunca cometeu uma gafe que atire a primeira pedra!! (por Ana Beja)

 

Quem nunca cometeu uma gafe que atire a primeira pedra!! Ou melhor que atire o primeiro comentário, pois é graças aos comentários que as gafes se cometem…e eu sou a rainha das gafes!!

 As gafes existem…estão por toda a parte e saem-nos da boca antes de termos tempo de pensar no disparate que acabámos de dizer!

 Uma das gafes que mais cometo é em relação aos nomes. Baralho, engano-me e esqueço-me imensas vezes dos nomes das pessoas. E então, para não fazer figura de parva, digo umas simpatias como “minha linda”, “minha querida”, pois não faço a mínima ideia do seu nome! Pior do que isso é quando trocamos os números de telemóvel e eu não sei que nome ponha nos contactos! E fica mal perguntar o nome, quando a pessoa que está a falar contigo sabe o teu! Já escrevi coisas do tipo “rapariga do café” ou “senhor do opel corsa”…

 Outra gafe muito comum é a da barriga…”Olá minha querida já nasceu o bebé?”, “Qual bebé???” responde a pessoa muito indignada! Faço a maior cara de perdão e desfaço-me em mil desculpas, mas não adianta…quem recebe um comentário destes fica fora de si  e só quer que eu enfarte logo ali ou seja atropelada por um trator! Pior ainda quando encontro alguém que esteve grávida, já não está, mas eu penso que ainda tem lá o feijãozinho a boiar em liquido amniótico e digo “Está quase a nascer…” e a recente mamã diz-me “ a Mariana já nasceu e tem 4 meses”! Só me dá vontade de fugir!!

 Muitas vezes penso que mais valia estar calada e somente abrir a matraca para falar do tempo ou da crise! Assuntos que ficam sempre bem nas conversas de ocasião!

 Outra gafe que cometo muitas vezes é a dos aniversários! Nunca me lembro dos aniversários! Agora já erro menos, pois o facebook tem uma memória espantosa e sabe os aniversários de toda a gente, no entanto e para evitar dissabores, coloco as datas de aniversário em agendas (que nunca vejo) ou em lembretes (que nunca ligo), por isso a última vez que dei os parabéns a um amigo já tinham passado 2 meses da data de aniversário! Enganei-me no mês…Vá lá que acertei o dia! Haviam de ver a reação dele quando lhe dei os parabéns…

 Podia contar muitas mais, mas vou terminar com a última que cometi…ao passar por uma colega de trabalho que vinha com uma menina pela mão, digo, com um ar simpático:

– Que linda a tua filhota! É a tua cara.

 Ao que ela me responde:

– Não é minha filha…é filha de uma amiga minha…

Eu não digo?!? Mas porque é que não falo do tempo ou da crise?!?

Ana Beja

 


 

Ups!  

Kiss, kiss. Bang, bang!

celmira