Category Archives: Gratos & Gritos

O dia em que ouvi uma voz no corredor (por Ana Beja)

 

Estava sentada no sofá da sala, a ver televisão, quando ouço a voz de um homem vinda do fundo do corredor. Primeiro não liguei, entretida com o que estava a ver, mas a certa altura, quando me apercebo do som forte da sua voz, resolvo ir averiguar, pois tinha a certeza de que só estava em casa com o meu filho mais velho. Saio da sala, percorro o corredor e o som é cada vez mais grave e forte. E próximo…Passo pelo quarto da minha filha, vazio e chego ao quarto dele. O som está ali. Vem dali, penso eu. Abro a porta e era o meu filho. Ao computador com um amigo. A voz forte que ouvia era a dele. Fico atordoada. Apercebo-me nesse momento que o meu filho deixou de ser um menino e passou a ser um rapaz! Apercebo-me que o miúdo loiro e pequenino, que tanto chamava pela mãe, está um adolescente feito! Com 1m e 75cm e a pesar 70 kg!

Ele, espantado com a minha cara de pânico, pergunta-me se estou bem. Estou bem?? Como é que eu posso “estar bem” se ainda ontem lhes mudava as fraldas e lhes dava papas de arroz sem glúten e hoje já tenho de lhes comprar Clearasil e máscaras de argila para as borbulhas? Não estava preparada para isto!

Dás-te conta que 15 anos passaram a correr e que toda a gente te avisou para “os aproveitares enquanto são pequeninos” e pensas “que exagero, passam lá agora!” e acreditas que irão ser sempre os teus bebés, fofos e reboludos, e de repente, como que por magia, estás a viver o refrão do “Não há estrelas no céu”, do Rui Veloso, na tua casa!

Dás-te conta que estão a crescer e que lentamente cortam o “cordão umbilical” quando te pedem para irem de fim de semana com os amigos, quando te dizem para os deixares 3 ruas acima da porta da escola, quando se envergonham de te dar beijos em público e quando te pedem para não ires assistir aos eventos desportivos que praticam, porque “vais ser a única mãe na bancada”!

Dás-te conta que afinal já tens 2 adolescentes em casa (ela só tem 1 ano a menos) quando não ouvem nada do que dizes e tens de pedir 15 vezes para arrumarem os quartos (sob ameaças, castigos e chantagens). Apercebes-te de que eles estão a crescer, porque já estás fora de moda, pois as “amigas é que têm estilo” e que nunca te soubeste maquilhar porque não tinhas os tutoriais fantásticos para o efeito, no youtube. Dás ainda conta que afinal não percebias nada de computadores e dispositivos móveis, pois dão-te dez a zero no manuseamento dos mesmos!

Dás-te conta que estás a ficar mais velha e que eles estão a crescer, quando olhas pela janela e já não os vês a brincar às escondidas com os miúdos do bairro, quando já não te chamam a meio da noite porque estavam a ter um pesadelo e quando já não vais com eles comprar o material escolar. Quando já não querem ir contigo a lado nenhum, mas sim ao cinema com os amigos. Quando já não querem coca-cola e te chateiam para beberem uma Radler. Quando já não andam à bulha no sofá para se sentarem ao teu colo, mas te pedem dinheiro para saírem à noite com os amigos e então depois, quando chegarem, sentam-se um bocadinho contigo no bendito sofá. Reparas que estão enormes quando já não te lembras da última vez em que entraste na Zara Kids, quando demoram 1 hora a tomar banho e “entornam” o frasco de perfume pela roupa abaixo! Quando começam a fazer a barba, a enrolar o cabelo com um ferro quente e quando batem com a porta do quarto na cara um do outro, pois tudo é um verdadeiro drama!

Quando o choque passa, acordas… “pois é, já não são meninos! São os meus filhos… grandes. Que começam a ganhar asas e a querer voar”. E compreendes que tudo isto faz parte do ciclo da vida e que ainda bem que é assim. Que a vida está quase por conta deles e que irão errar e bater com a cabeça muitas vezes. Que vais passar para segundo, terceiro e quarto plano e que só muito mais tarde é que irão dar valor ao que dizias. Que daqui a 3 anos estão a entrar na universidade e a viverem sozinhos, num quarto, com uma cambada de colegas, em farras e noitadas quase diárias! E que só tens a casa cheia aos fins de semana para lhes lavar a roupa e preparares as marmitas com a comida para a semana! E quando esse dia chegar (que vai chegar à mesma velocidade como chegou o dia em que ouvi uma voz de homem ao fundo do corredor), olhas para trás e pensas que tudo isto passou a correr e que darias tudo para os voltares a ver, da janela, a brincarem às escondidas com os miúdos do bairro!

Ana Beja

Foto: http://revistadeciframe.com

 


 

kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

Disse-me que já tinha vivido tudo… (por Ana Beja)

 

Disse-me que já tinha vivido tudo. E que tinha mais anos para trás do que para a frente. Também pouca diferença lhe fazia. O que teve de ser feito, fez. Agora era passado. Pretérito perfeito. Ou imperfeito, diria eu. Porque isto de se estar no fim da vida não deve ser nada fácil.

De olhar vazio na conversa, acrescentou que a vida passa num instante e que a devemos aproveitar todos os dias. Resta-lhe a fé. Companheira de longa viagem e herança deixada pela mãe. A única, também. Já que eram pessoas de parcos recursos, mas honestas! Eram 8 irmãos. Conheceu 6. Dois perderam a vida em pequenos. Foi aí que a fé preencheu o vazio do coração da mãe. Havia respeito. Todos se sentavam à mesa à mesma hora. O pai na cabeceira. A mãe ao lado. Primeiro a mãe servia o pai. Depois os filhos. Por ordem decrescente. No fim sobrava-lhe o resto. Sempre chegou para todos. Afirmou com a voz segura.

Não estudou. Não havia tempo para estudos. Também nunca fui muito bom com letras. Sei o essencial, afirmou. Fui até à 4º classe com o Professor Silvério e levei muita canada! Ainda hoje as letras se embaralham…mas já deve ser dos olhos…94 anos a puxar por eles! A idade pesa, sabe? Diz-me ele de olhar posto no horizonte. O tempo encarrega-se disso. Já não sou o que era. O corpo começa a dar sinal, pouco a pouco. Primeiro é uma dor aqui, depois outra ali…remédio para isto, remédio para aquilo…mas não há medicação que nos cure da velhice. E dela não podemos fugir! Aparece devagar, quase nem se dá por isso. Antes lavrava um pedaço de terra enquanto o diabo esfregava um olho! Agora está aqui tudo por lavrar. Se a minha Maria visse uma coisa destas…Já partiu faz agora 17 anos. Fiquei sozinho desde que ela foi. Perdi a minha companhia. Fui-me abaixo desde que ela foi para o céu. Sim, que a minha Maria foi para junto Dele.

Os filhos têm as vidas deles. Pouco querem saber disto. Tenho dois na Alemanha e uma na Suíça. Vêm cá no verão. Para as festas da aldeia. Eu nem saio nesses dias. É cá um barulho! Mas gosto que venham cá, diz agora com o rosto iluminado. É a primeira vez que lhe vejo o sorriso. Aberto, enrugado e queimado pelo sol. Despeço-me com um abraço. Agradeceu por o ter ouvido. Já quase ninguém me ouve, terminou. Eu ficaria ali a ouvi-lo até quando lhe apetecesse. Prometo que se um dia lá voltar o irei procurar. Respondeu que ficará no mesmo lugar. À espera. Não de mim, mas do dia em que voltará a ver a sua Maria.

Ana Beja


 

Kiss, kiss. Bang, bang

celmira

 

o Hélder tem atestado de 100% de incapacidade, só a médica não vê! (por Manuela Gomes)

 

“Pois é! Não é anedota.
Acabo de ver indeferido o meu pedido de complemento por dependência em nome do meu filho!
Apresentei o meu filho numa junta médica da segurança social e a médica que o avaliou não comprovou a dependência do Helder!


Torno este assunto público para que os portugueses vejam a injustiça e o desrespeito com que os nossos cidadãos dependentes são tratados.


Esta senhora, que viu o meu filho em cadeira de rodas, completamente dependente deve achar que andamos em cadeira de rodas porque não temos mais o que fazer! Como se não bastassem os documentos que estão no processo e que comprovam a dependência em grau elevado e um atestado de incapacidade de 100 por cento.


O meu filho não se defende mas eu não cruzo os braços até que esta senhora não seja responsabilizada pela atitude negligente e incompreensível que teve com o meu filho.

Considero esta atitude um desrespeito ao meu filho e a todo o trabalho e dedicação que eu e a minha familia temos tido.


E assim vai o nosso país, e falam tanto de inclusão…quando são os próprios serviços que nos deviam apoiar os primeiros a discriminar. (Manuela Gomes)”

 


 

Comentários? Nem consigo escreve-los…

Apenas umas notas:

1-O Hélder tem 23 anos e tem uma Esclerose Tuberosa, é o caso com maior comprometimento (100% de incapacidade) do país. É dependente de terceiros para todas as atividades de vida diária.

2- A Manuela é uma mãe coragem lutadora como poucas pela qualidade vida do seu filho e de outras pessoas com diversidade funcional. É Presidente da Assembleia Geral da Associação Leque.

Manuela estamos contigo nesta e em todas as lutas.

Kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

Ser-se perfeitamente normal é chato (por Ana Beja)

 

Ser-se perfeitamente normal é chato. É tal e qual como a água. Sem sabor. Mas isto de ser-se normal também é um conceito muito básico! Ao fim ao cabo, ser normal é um verdadeiro aborrecimento, pois é na diferença que está o verdadeiro brilho. A verdadeira essência. Pelo menos é a minha opinião! E vale o que vale!

 

Nos últimos dias, a propósito de um atleta olímpico que decidiu mudar de sexo (aos 65 anos, por não ter conseguido viver mais na mentira) que tenho ouvido palavras como transsexualidade, identidade de género, orientação sexual, homossexualidade, entre outras e tenho constatado que ainda reina o preconceito e o julgamento. O preconceito de quem acha que tudo isto é “contra natura” e o julgamento de quem não compreende como é que se pode mudar de sexo ou vestir-se de mulher, quando na realidade se nasceu homem!

 

Que raio?!! Mas afinal, não somos todos seres humanos? Não nascemos todos da mesma maneira? Não temos todos cabeça, tronco, membros? Coração?? Não somos todos providos de sentimentos? E de sofrimento, também! Imaginem a infelicidade de alguém, que nasceu homem, mas que se identifica como mulher, e tem de enfrentar uma série de padrões impostos pela sociedade. Já imaginaram a luta interior de alguém que tem de se assumir perante uma sociedade preconceituosa e pouco tolerante? Imaginem serem alvo de gozo, de desprezo, de indiferença e indignação, simplesmente por gostarem de pessoas do mesmo sexo?

 

Já pensaram na angustia, na vergonha e no sentimento de culpa com que estas pessoas se debatem diariamente? Já não é uma pena tão pesada? Quem sou eu para julgar alguém? Não deve ser fácil viver na pele que não se sente. Não é fácil fingir o que não se é. Quem gosta de viver rodeado de rejeição ou pensar que os seus sentimentos são inadequados e impróprios, só porque não faz parte do mesmo “clube dos outros”?

 

O que é que interessa se o Zé gosta do Zé, se a Maria gosta da Maria ou se a Maria quer ser Zé? Não são os nossos atos que nos definem? O nosso caráter? Não é a maneira como nos relacionamos, a forma tratamos os outros e o respeito pela liberdade que nos caracteriza enquanto pessoas? Ou são as nossas opções individuais? Os nossos gostos? Porquê que o facto de não me sentir bem na minha pele e de querer uma mudança, poderá condicionar e influenciar a minha vida enquanto ser humano? Porquê é que por ser homossexual me está vedado uma série de direitos, aos quais teria livre acesso, caso fosse heterossexual?

 

Tenho pena que ainda existam tantos preconceitos em relação ao que muitas vezes se acha “fora do normal”. Considero que aquilo que nos define são as nossas atitudes e não as nossas orientações sexuais. Considero que o que faz de nós Seres Humanos é a capacidade de aceitar o outro e respeitá-lo. Tal e qual como é. Sem filtros ou julgamentos. Até porque seja qual for a matéria que nos compõe, duma coisa tenho a certeza… é que por dentro somos todos iguais!

Ana Beja

 


 

Beijinhos Ana e Obrigada por mais um texto ❤

celmira

Pedras no caminho? Construam pontes (por Ana Beja)

 

Tenho assistido com algum pavor às notícias dos últimos tempos. Chego a pensar que tenho de dar razão aos mais velhos quando os ouço dizer que isto é o fim do mundo!

Ver o telejornal à hora do jantar é um ato verdadeiramente corajoso e com o qual me tenho confrontado nestes tempos. Já pensei em mudar o canal para o Discovery Channel e assistir à invasão dos gafanhotos no Deserto do Saara. Pelo menos não me irrito tanto e até me acalmo (com o barulho dos bichinhos).

Mas o que se passa connosco?? Estaremos a ficar todos doidos?? Que raio de liberdade é esta em que dizemos e fazemos tudo o que nos dá na real gana, arrastando e derrubando o que nos aparece pela frente, sem olhar ao mal que estamos a fazer? Para onde foi o respeito, a solidariedade e a amizade? Onde andam os valores? Será que ( tal como tantos portugueses) emigraram para outro país ou continente?

Numa sociedade onde se prega tanto sermão e roga tantos rosários, onde nos achamos no direito de opinar sobre a vida dos outros e sobre tudo e mais um par de botas (mesmo não percebendo patavina do assunto) onde a informação é a primeira a chegar, como se pode assistir a tanta doidice e falta de juízo? À hora do almoço não é diferente da hora do jantar…parece o “Crime”, só que na versão ao vivo e a cores: “pai atira sobre…”, “vizinho mata…”, “mãe afogou…”, “colega de escola mata…” e nem escrevo o resto, pois o resto toda a gente já sabe. A última que ouvi (e esta vou escrevê-la toda) foi “homem mata por causa de uma bola de berlim”. Será possível, pensei eu? Estarei a ouvir bem? Não só ouvi, como li, pois estava escrito em letras garrafais no ecrã da televisão onde costumo almoçar. Estava para comer dentro do estabelecimento, pois estava um vento maluco, no entanto, não há estômago que aguente estas notícias e preferi ir para a esplanada levar com o vendaval!

Custa-me ver a falta de auxílio, de proteção, a falta de solidariedade. Custa-me ver pessoas que não cumprimentam, que não apertam as mãos, que não dão um sorriso ou um abraço, que não dão a vez a alguém da fila, que não seguram a porta ou que não se levantam da cadeira para dar lugar a quem mais precisa. Será que a sociedade entrou em falência emocional?? Estaremos todos na bancarrota?? Porque será que andamos tão irritados? Parece que andamos todos zangados uns com os outros, que só temos direitos e nenhuns deveres e que toda a gente nos deve e ninguém nos paga! Não sei como será daqui para a frente, mas se é assim o agora, imagino o amanhã!

Tenho pena que a sociedade esteja desta maneira. Que não exista tolerância entre nós, que não se respeite o próximo, que se devasse a vida alheia, que se mate, espanque, abuse e acuse com uma leveza tão grande como quem mata por uma bola de berlim! Será que se nos puséssemos no lugar do outro e parássemos para pensar no sofrimento que estamos a causar, o mundo não seria bem melhor? Se deixássemos de olhar só para o nosso umbigo e passássemos a olhar para o do outro, não seríamos mais felizes? De certeza que sim, até porque penso que a verdadeira essência da felicidade consiste em fazer os outros felizes!

Termino, parafraseando Pessoa, e apesar da alteração da ideia, não tenciono o desprestígio da mesma: Pedras no caminho? Apanhem-nas todas. E em vez de um castelo construam pontes. E atravessem-nas. Para que possam sentir, nem que seja por um momento, o que é estar do outro lado!

Ana Beja

Foto: http://line-sweet-home2.zip.net/images/A_pedra_no_caminho.jpg


 

Kiss, kiss! Bang, Bang!

celmira

Professores e pais deviam de ser uma equipa, não inimigos! (por Marta Mascarenhas)

 

“Antes de mais, gostaria de deixar bem claro que não tenho como intenção apontar o dedo a ninguém, nem julgar, nem reclamar. Apenas gostaria de partilhar convosco a minha experiência e, quem sabe, talvez um dia possa ajudar alguém para que não aconteça com mais ninguém o que nos aconteceu.

O meu filho, depois de 10 anos de muita luta, foi finalmente diagnosticado com Síndrome de Asperger, em Dezembro passado. Sempre tivemos muitos problemas com ele e, principalmente a escola, devido ás suas dificuldades na interacção social.

O inicio deste ano escolar foi particularmente difícil. Mudou de ciclo e, como tal, de escola e de DT – tudo coisas que por si só já são complicadas. O pior foi o Director de Turma que mudou. O do ano passado era um anjo vindo do Céu para o orientar e ajudar. Ele sentiu muito essa “perda”. A nova DT é uma pessoa muito agressiva, fria e sem qualquer paciência para alguém como o meu filho.

Fizemos várias reuniões com a escola, sozinhos e com a presença de uma psicóloga privada que contratámos, já que o SNS achou que ele não carecia de acompanhamento, com o intuito de pedir ajuda para ele – para os consciencializar para as dificuldades dele e a necessidade de uma abordagem um pouco diferente, mas a escola recusou veementemente em aceitar que ele tinha sequer qualquer dificuldade ou problema! Tinha no seu Plano de Educação Individual as adequações que o serviço de Educação Especial achou conveniente e mais nada. No ponto de vista da escola, tratava-se de um miúdo preguiçoso e pouco disciplinado, mas que de resto era tão normal e adaptado como qualquer outro aluno, e a carga negativa foi fulminante desde o primeiro dia.

Pedimos para valorizarem o positivo. A resposta foi um ataque brutal a TUDO de negativo. Implicaram porque não fazia os TPC. Pedimos ajuda para ele os fazer na escola, pois em casa, na cabeça dele, não era lugar para fazer as coisas da escola. A escola recusou. A disgrafia dele mantinha-se acentuada. Pedimos á escola que o deixassem entregar trabalhos em suporte digital (no PC). A escola recusou. Ele, ao abrigo do artigo 3/2008 deveria de estar numa turma de tamanho reduzido. Foi recusado e ele integrou numa turma de quase 30, incluindo alunos repetentes e destabilizadores.

O resultado do primeiro período foi uma desgraça. Teve 3 negas. Fiquei aterrada, pois ele é aluno de inteligência acima da média que nunca tinha tido notas semelhantes a estas. Falámos com ele e resolvemos fazer um acordo e um esforço para melhorar. Sem qualquer ajuda ou envolvimento da escola, ele no final do segundo período tinha subido de 3 negas para apenas 1 e ainda teve 5 quatros! Subimos todos aos céus de felicidade. A resposta da escola foi considerar que ele tinha tido apenas uma “ligeira melhoria” e que iria manter a imposição total do seu cumprimento com todos os projectos propostos.

No inicio do 3º período tudo piorou dramaticamente. O meu filho estava desanimadissimo com a reacção da escola ao seu esforço monumental. Na 6ª Feira passada, depois de mais uma reclamação da escola por ter TPCs inacabados/mal feitos aconteceu o que não desejo a NINGUÉM neste mundo. O meu filho acabou por pôr termo á vida. Tinha 14 anos.

Sabíamos que ele estava sob uma pressão desumana por parte da escola mas nunca, NUNCA em mil vidas nada os levou a pensar que isto seria sequer ponderável.

Portanto, deixo aqui um apelo para TODOS os professores e pais deste país e deste mundo. A vida de uma criança é o nosso maior tesouro. Por favor, NUNCA desvalorizem um pedido de ajuda de uma mãe. Não há NINGUÉM neste mundo que conheça melhor o seu filho do que ela. Se ela acha que precisa de ajuda, ajudem. Mas ajudem de coração. Nem que seja por indulgência, porque a dor que uma mãe sente ao perder um filho por quem pediu ajuda a tantas pessoas, tantas vezes e com toda a força que tem é algo que é indescritível.

Não aceito que qualquer situação politica justifique a falta de humanidade que hoje se vive diariamente nas nossas escolas e na nossa sociedade, sob desculpa de “cortes” e “crises” e afins. Somos humanos. Os nossos filhos são o nosso futuro. Professores e pais deviam de ser uma equipa, não inimigos.

Apelo, de coração destroçado, para que algo ou alguém mude a mentalidade de quem tem o poder de alterar mentalidades para que as nossas crianças deixem de ser consideradas um fardo que têm de ser educadas, e que passem a ser vistas como seres que carecem de orientação de quem já viveu o suficiente para os poder ENSINAR. Respeito, consideração, compaixão – são coisas que se ensinam em casa, é verdade – mas que devem de ser reforçados na escola. Lamento profundamente que hoje em dia isto puro e simplesmente não acontece.

Desejo a todos muita paz e todas as bênçãos do Alto e o meu muito obrigado por me ter sido permito este desabafo.”

Marta Mascarenhas


 

Obrigada Marta pelo seu testemunho. Faz-nos refletir em muita coisa!

Kiss. kiss. Bang, bang!

Eu, mãe! (por Ângela Pinho)

 

Eu, mãe!

Sou aquela mãe… A que desejou tanto ser mãe!

A que, um dia, comprou um livro para ti e escreveu “Para ti, porque mesmo antes de existires, a mamã e o papá já te amam tanto!”

A que chorou de alegria imensa, riu e sentiu um turbilhão de emoções quando viu aquela risquinha no teste de gravidez!

A que passou nove meses com a barriga no coração!

A que desfilava na rua com o seu grande barrigão, orgulhosa e babada (como se nunca ninguém no mundo estivesse estado grávida antes!).

A que punha música clássica junto da barriga, para tu ouvires!

A que odeia ferro de engomar e, apesar disso, passou mil vezes cada peça de roupa do teu enxoval como se fosse a coisa mais prazerosa do mundo!

A que devorou todas as revistas sobre gravidez e bebés e seguiu todos os blogues e sites da especialidade!

A que engordou 20kg e ficava cada vez mais feliz com cada grama a mais de puro amor!

A que fazia grandes tertúlias com a sua barriga e considerava um pontapé teu o melhor discurso, a resposta perfeita!

A que foi para a maternidade doida de felicidade! A que, apesar de tanta contração seguida e de uma epidural que teimava em não fazer efeito, conseguia no meio de tanta respiração, esboçar sorrisos para o papá e dizer qualquer coisa como “estamos quase a ter o nosso bebé” (com muitas pausas porque as dores não deixavam dizer esta frase seguida)!

A que pensou que, quando viu aqueles olhos lindos pela primeira vez, o peito não aguentava tanta plenitude (parecia que ia rebentar de tanta emoção) e só conseguia chorar (as lágrimas mais felizes que alguma vez correram no meu rosto) e dizer vezes sem conta “és lindo”!

A que, na primeira noite na maternidade, conversou horas contigo, confidenciando sonhos, desejos, expectativas, sentimentos… (e tu, meu amor, apenas com algumas horas, olhavas-me com os teus lindos olhos arregalados e atentos como se estivesses a perceber tudo o que te dizia… e tão calminho, abraçado a mim… estiveste assim horas.. nem dormir, dormias – dormir também nunca foi o teu forte-)!

A que desesperou (mas nunca desistiu!), quando me obrigavas a fazer diretas seguidas, passavas noites e noites acordado ou pedias a mama de hora a hora!

Sou a mãe que, quando começou a trabalhar e se separou de ti pela primeira vez durante umas horas, chorou baba e ranho pois parecia que me tinham arrancado um pedaço de mim!

Sou a mãe que nunca perderia uma festa tua da escolinha! Sou a mãe que adora e respeita muito quem todos os dias cuida de ti na escolinha, pois são também os teus adultos de referência, que te ensinam e mimam quando eu não estou!

Sou a mãe que cuida de ti e te ama como se fosses o meu tesouro mais valioso… porque, de facto, és mesmo!

Sou a mãe que se sente vitoriosa com cada conquista tua!

Sou a mãe que diz que tu só vais sair de casa, muito depois dos 30! (e quer-me parecer que às vezes digo isto a brincar, mas desejando-o a sério!)

Sou a mãe que desejava passar todas as horas do dia ao pé de ti! Sou a mãe que aproveita todos os segundos contigo para te amar, brincar, pular, saltar, dançar, cantar, ler histórias, estafanar com mimos…!

Sou a mãe que educa e que também te diz “não” e que se mantém firme, mesmo que me apeteça desfazer em lágrimas e voltar atrás, quando te vejo a chorar!

Sou a mãe que arranja forças quando estás doente e deseja que as tuas dores se transfiram para mim, para não sofreres!

Sou a mãe que fica com a lágrima no canto do olho quando me afastas o cabelo da cara com a tua mãozita e, sorrindo-me com a maior ternura, me olhas e dizes “És linda!”!

Sou a mãe que adora os teus beijinhos e dormir agarradinha a ti! Sou mãe, como tantas outras mulheres no mundo que o são! O que me torna especial?! Ser a TUA mãe! Tu fazes de mim única e especial!

Sou mãe… Muito gosto, Ângela Pinho, mãe do Santiago!

 


Mais emocionada nao poderia estar. Obrigada Ângela, agradeço-lhe de coração este magnífico texto! ❤

Kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

 


 

Deus me livre do dia em que deixar de acreditar nas pessoas (por Ana Beja)

 

Sempre me considerei perseverante. Caçadora de sonhos e castelos no ar. Irremediável fantasista, fazedora de coisas e otimista ingénua, acreditando que todos somos bons e justos e que o ser humano é imperfeito, mas que essa imperfeição nos conduz à sabedoria e ao enriquecimento.

Acredito no poder das pessoas. Na sua força e capacidade. Na vontade de mudar o mundo e transformar mentalidades. As pessoas inspiram-me. Principalmente aquelas que conseguem revirar o seu destino. Que não se acomodam com o razoável e que mesmo sem verem a luz ao fundo do túnel o atravessam. No escuro e sem medo. Muitas vezes com as pernas a tremer, mas atravessam-no. Derrubam barreiras e transpõem pontes. Às vezes mal conseguem andar, mas a força de lutar é maior do que qualquer outro sentimento derrotista e fraco.

Gosto de pessoas que não desistem. Que vão à luta. Pessoas que caem vezes sem fim mas que se levantam. Pessoas que renascem cada vez que batem no fundo. Que aprendem com os erros e batem com a cabeça, usando-os para as fortalecer e criarem crosta. Com erros que as moem mas não as matam.

Essas pessoas são especiais. Têm luz própria e são possuidoras de uma energia contagiante. Brilham em cada gesto que fazem e tempestade que defrontam. E estão sempre intermitentes. Sempre prontas e em alerta para desbravarem mais um caminho curvo e sinuoso, onde o mais pequeno deslize as faça despistar e sair do trilho. Estas pessoas não aceitam meias verdades, não ficam com as coisas pela metade nem brindam a olhar para um copo meio vazio. Falam com o coração nas mãos, de peito aberto e dando alguns pontapés na gramática, pois pouco lhe interessam as palavras polidas, vazias e sem sentido.

Essas pessoas fazem-nos acreditar que há sempre esperança e que esta nunca é a última a morrer. Mostram-nos que as longas viagens começam com um passo e que enquanto não tivermos conhecido o inferno, o paraíso nunca será suficientemente bom para nós.

Deus me livre do dia em que deixar de acreditar nas pessoas e de me inspirar nas suas vidas. De aproveitar as suas lições e de ver que a persistência realiza o impossível. Não nos esqueçamos de que as torres mais altas nascem do chão e que há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.

Ana Beja


Subscrevo: Deus me livre do dia em que deixar de acreditar nas pessoas e de me inspirar nas suas vidas.

Kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

Sim, o meu filho tem uma deficiência, mas isso não lhe retira qualquer direito na vida (por Manuela Gomes)

As pessoas portadoras de deficiência têm os seus direitos que deviam ser respeitados pela sociedade e deviam ser tratadas com mais respeito.

Estes seres humanos tem todos os direitos que um cidadão dito normal e mais alguns que lhes são atribuídos pela lei e são merecedores de todo o nosso respeito. Eu, não sendo portadora de deficiência, vivo esta realidade através do meu filho, que tem 24 anos mas encontra-se incapacitado a 100%.

Vivo diariamente na pele e na alma a injustiça, a indiferença, o desrespeito e até a discriminação apenas por ser uma pessoa diferente. Sim, é verdade que o meu filho é diferente, mas isso não lhe tira qualquer direito na vida e na sociedade. E estas situações vivem-se todos os dias e em todos os contextos: na rua, na escola, nos hospitais, na sociedade e por vezes, até na própria família.

A pessoa portadora de deficiência não pediu para nascer, nem tem culpa que o destino lhe tenha dado tal herança para o resto da vida! Já bastam todas as dificuldades que estas pessoas têm diariamente para terem alguma qualidade de vida!

Por vezes é muito difícil calar a indignação, mesmo que já estejamos familiarizados com a nossa condição, mas por vezes a paciência esgota. Comentários como “o coitadinho, o anormal, o aleijadinho e peça a deus que lho leve” (é verdade já me aconteceu mais que uma vez), deixam-me à beira de um ataque de nervos. E isto para nem falar dos olhares e das expressões que as pessoas fazem, é como se estivessem a ver um primo do “ET”. Enfim, um sem número de situações que temos que enfrentar cada vez que saímos de casa.

O que estas pessoas não sabem, ou até sabem mas não se importam, é que estas pessoas têm dignidade, valores, princípios, sentimentos, direitos e merecem ser tratadas com todo o respeito.

Respeitar os lugares nos estacionamentos que lhe estão reservados é um direito, bem como a prioridade nas filas de espera mas quase nunca é respeitado.

Depois há pequenos gestos que podem mudar o dia destas pessoas. Por vezes basta um olhar, um sorriso, um simples ”bom dia”, o segurar a porta para poder passar com a cadeira fazem toda a diferença. Custa tão pouco e faz as coisas parecerem mais fáceis!

Já pensaram nas coisas que teríamos que mudar para ter uma sociedade mais justa? E não é só das pessoas que eu estou a falar. Falo das passadeiras, que não tem rebaixamento dos passeios; dos passeios, demasiado estreitos e com árvores, candeeiros, caixotes do lixo e por vezes até carros estacionados; dos lugares nos parques de estacionamento, sempre ocupados por carros sem dístico; as caixas multibanco, demasiado altas; os balcões de atendimento, demasiado altos para que a pessoa possa ter um atendimento digno; dos corredores dos hospitais, demasiado estreitos; dos consultórios médicos, pequenos demais para acorrer toda a mobília mais uma cadeira de rodas…enfim, muito mais havia a dizer mas a lista já vai longa! Todos estes obstáculos obrigam-nos muitas vezes a pensar duas vezes antes de sair de casa, porque é mais fácil e mais comodo ficar quietinhos e sossegadinhos no nosso canto. A sociedade não está preparada para nos proporcionar o mínimo indispensável para termos uma vida minimamente confortável fora de casa. E na maioria das vezes são pequenos gestos que podem fazer toda a diferença na vida destas pessoas!

Pensem nisto!

Manuela Gomes

 


 

Nem vou dizer mais nada, não é preciso pois não?

Deixo apenas um abraço forte à Manuela, porque neste momento está com Helder no Hospital. Mais uma batalha desta mãe coragem. Um exemplo de vida. ❤

Kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

Memórias. Passamos a vida inteira a criar memórias (por Ana Beja)

 

As memórias são como um livro. Ou um diário. Bem guardado. Uma caixa de pandora arrumada numa gaveta e fechada a 7 chaves.

Quem não tem memórias? Quem não relembra com saudade o tempo que já viveu? Ninguém nos apaga a memória. Ela é nossa. É pessoal e intransmissível. E podemos contar ou não as nossas memórias. Elas são capítulos da nossa história. E nesses capítulos, as personagens, os lugares e as situações vão-se alterando.

Eu gosto de contar as minhas histórias. Gosto de me lembrar do que já passou e do que já vivi. Muitas vezes, quando viajo por alguns capítulos, relembro-me de pessoas que infelizmente já não fazem parte das minhas histórias, mas que estão sempre presentes na minha memória. E por isso perpetuam no tempo.

A perda dessas pessoas é insubstituível. Deixam-me no vazio sempre que penso que já não estão no meu presente. Transformam a dor numa sensação de incapacidade, num poço sem fundo ou caminho sem retorno, num desejo infinito de fazer recuar o tempo e de as trazer de volta para ao pé de mim…

Se eu mandasse no tempo, este nunca teria fim. Seriamos eternos. Não havia ditados como “para morrer só é preciso estar vivo”, nem “antes a morte que tal sorte”.

No entanto, e graças ao poder de recorrer à minha memória, as pessoas das quais eu tenho o coração cheio de saudade, voltam a ganhar voz e movimento. Voltam a ser parte de mim. Ganham vida. E muitas vezes, em vez da lágrima que já espreita, solto uma enorme gargalhada ao pensar no que vivi com elas. E na honra que tive em fazer parte das suas vidas.

Já perdi algumas pessoas que me eram (e são) muito queridas, no entanto, a grandeza de as recordar fazem com que essas memórias ganhem ainda mais sentido. Afinal, recordar não é viver? Então, e fazendo jus ao ditado (deste já gosto mais), criem-se memórias. Vivam. Riam. Sejam felizes. Aumentem capítulos à vida. Construam histórias. Aproveitem o melhor de cada momento.

Se pudesse construir uma nova história, cada uma dessas pessoas que estão no meu livro bem guardado, continuariam comigo a acrescentar capítulos. Como já não estão, resta-me recordá-los a todos e conservá-los com muito carinho na minha memória.

Este texto é dedicado a todos aqueles que já partiram e que farão sempre parte da minha história.

Ana Beja

 


 

Obrigada Ana.  ❤

Kiss, kiss! Bang, Bang!

celmira