Category Archives: Agradecia só ter de gritar uma vez!

O Chico-Esperto social

Ao longo da vida tenho tido o (des)gosto de me cruzar com toda a espécie de chicos- espertos. Apesar de lhes devotar um profundo e esmagador desprezo, sempre os suportei. Tive em consideração o que sociólogos e investigadores, como o catedrático José Gil defendem sobre o chico-espertismo: apesar de ser uma característica bem portuguesa, ela é evidente ao longo da nossa história: mesmo Lenine na sua crueldade classificava “chico-espertismo” como o oportunismo do pequeno-burguês.

 

Importarmos o chico-espertismo burguês até poderia ser considerado positivo, fosse ele fosse sinónimo de desenrascanço altruísta, mas não é. Atualmente Chico-esperto não tem hora para se fazer anunciar, género ou cultura. Simplesmente convive diariamente ao nosso lado. Silencioso, à espera da oportunidade certa para se desenrascar sim, mas à nossa custa!

 

Apesar de traduzida numa espécie de oportunismo, com obscuros contornos morais, sempre pensei que existissem áreas sagradas, onde a consciência moral destes “Chicos” e “Chicas”, fosse de alguma forma ativada, respeitando assim valores de cidadania e solidariedade, como é o caso da área social, mas não, esta nova espécie rapidamente percebe que a área social é um tereno fértil que serve de trampolim para outros interesses (seus evidentemente!).

 

O “chico-esperto social” é assim aquele individuo, meio homem (ou mulher) meio vampiro, que suga sub-repticiamente aqui e ali, para levar para além e acolá, retirando evidentes benefícios ou a vantagens pessoais, mesmo em prejuízo de outros. O chico-esperto abdica de valores, tais como a honestidade intelectual, a ética ou o respeito pelo outro, para ter uma vida confortável. Na cabeça do chico-esperto impera a lei da selva para se ser bem-sucedido! Opções de vida pouco éticas com as quais me recuso a compactuar.

 

Entre a corrida perfídia e desenfreada para o sucesso e a caminhada compassada, mas digna e humanizada, prefiro a última. Até porque também prefiro gente nobre, que convive na honestidade. Como sempre ouvi dizer que espertos são os cães, sem desprestígio para o fiel amigo do homem, convidam-se os praticantes do chico-espertismo a começar a agir como eles: mesmo os cães famintos sabem que não é boa ideia morder a mão que os alimenta.

Kiss, kiss!

Bang, bang!

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Portugal tem tanta trampa quanta trampa o Trump tem

Talvez muitos não esperassem que, de um país, supostamente dos mais desenvolvidos do mundo, surgisse um candidato presidencial com uma visão tão inqualificável sobre a sociedade, em geral e sobre questões étnicas e de género, em particular. Presunçosamente pretende combater o fundamentalismo islâmico, construindo muros para separar etnias, atentando às liberdades individuais e lançando verdadeiros ataques personificados contra mulheres, culturas e todos aqueles que fogem à matriz cultural tipicamente norte-americana WASP (White, Anglo-Saxon & Protestant). Quando ouvimos o seu discurso não conseguimos perceber com clareza quem é afinal o mais terrorista.

O mais intrigante, se não fosse deprimente, é que assistimos a milhões de apoiantes deste discurso, o que revela que a mentalidade à la homem das cavernas continua mais disseminada pelo mundo do que seria de esperar, mesmo em países que tendemos a classificar como “civilizados”.

Desengane-se quem pensar que em Portugal se está imune a esta epidemia, se é que o nosso país não é por si só, um paraíso para este baluarte machista. O machismo intrínseco à nossa sociedade é por vezes mais perigoso, pelo fato de estar tão enraizado que nos habituamos a ver como normal, nas múltiplas formas que toma. Pactuamos com esta mentalidade cada vez que nos rimos de uma piada, desvalorizamos um comentário ou o replicamos passivamente.

Quem não se riu já de piadas sobre “loiras burras”, “ciganos”, “gays”, “pretos” ou “deficientes”? Quem não calou já comentários castradores sobre qualquer uma destas pessoas, nas mais diversas situações? Quem não assistiu já a olhares de desconfiança em relação à ascensão de mulheres a cargos de poder?  Ou foi conivente com comentários de que o seu melhor lugar é na cozinha e que deve ser, antes de mais, submissa?

Infelizmente não faltam exemplos desta trampice na nossa sociedade, e não, não saem das bocas dos trolhas no cimo do seu andaime. Outros e outras comentam do alto do seu espaço de opinião, em situação bastante confortável e semelhante ao candidato norte-americano que, mesmo de longe, finge chocar homens e mulheres que convivem bem e são até coniventes  com este tipo de mentalidade.

Quem conhece bem a nossa cultura sabe o quão está implantada a mesma atitude tacanha que nos causa tanta estranheza lá fora, e à qual, ao mesmo tempo, estamos tão habituados cá dentro. Por isso, comparações à parte, o tempo tem-nos vindo a mostrar que, mais coisa menos coisa, Portugal tem tanta trampa quanta trampa o Trump tem.

Kiss, kiss! Bang, Bang!

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Cuidar de quem cuida

A Maria e o marido convidam uma amiga para uma viagem de férias a cinco. Ela, o namorado, o casal e o filho. O José, típica e maravilhosamente autista, era aluno na escola da amiga e o profissionalismo que os uniu depressa evoluiu para amizade. Eram uma espécie de família.

Desafio aceite, rumam ao Algarve para uma casa alugada. As estereotipias do José não permitiam aos pais a entrada em hotéis. Ao final do segundo dia eram convidados a sair e desta vez precisavam mesmo de um período de descanso. E tiveram-no.

Às cinco da manhã, enquanto os pais dormiam, o José puxava a mão da professora verbalizando um “amos”, como que queria dizer “levanta-te que já dormiste demais e vamos mas é curtir a praia”. Isto depois de na noite anterior lhe ter dito “olá” de meia em meia hora pelo menos até às duas da manhã.

Aguentou firme as horas de passeio pela praia, sem nunca parar. Aguentou firme o olhar alienado de quem acha que estava na presença de um marciano. Aguentou firme o cansaço de quem quase não come, quase não dorme, o cansaço de quem cuida. E depressa percebeu a sua missão ali: cuidar! Não só do José, mas cuidar de quem todos os outros dias o cuida: daqueles pais que em 12 anos nunca mais tinham dormido 8 horas seguidas, nunca mais tinham desfrutado do mar a dois, nunca mais tinham namorado de mãos dadas ao pôr-do-sol.

Achou que lhes devia isso. Não que lho devesse necessariamente, mas amizade que lhes nutria era grande, maior ainda era o amor pelo José. Era quase seu. Mas apenas durante 8 dias. Voltou a casa exausta.

Cresceu.

Mal chegou tornou o impossível possível, criou um Centro de Turismo Rural Inclusivo (www.leque.pt) para receber os filhos e cuidar dos pais. Nos anos que se seguiram, foi “ama” de dezenas de jovens vindos de todo o país.

Cuidadores/as exaustos/as, famintos/as por uma pausa, mas temerosos/as, acabavam por lhe entregar, nas suas mãos desconhecidas, o seu bem mais precioso: os seus filhos. No rosto traziam estampada a culpa dilacerante, as lágrimas escorriam pelo rosto no momento da breve despedida para um par de semanas só suas.

Ano após ano, a culpa foi desaparecendo, e estes pais e mães perceberam, com sangue, suor e muitas lágrimas, a necessidade maior de cuidarem de si mesmos/as. Não por incapacidade, mas por humanidade, dado o desgaste prolongado, o desânimo aprendido, a autoculpabilização irracional, as noites mal dormidas, a vigília constante, o cansaço de anos sem descanso.

O propósito deste Centro  é uma mensagem aos Cuidadores/as Informais: Que se cuidem, pois quem não se cuida não consegue cuidar.

Publicado originalmente em: http://www.delas.pt/cuidar-de-quem-cuida/

Kiss, kiss! Bang, bang!

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Posso SER e EXISTIR, sem rótulos nenhuns?!! Agradeço.

 

Há algum tempo que não escrevia. O tempo e a saúde são elementos tramados nisto de tentar ser “super mulher” (É tão interessante quanto ridículo  termos essa triste ambição: de fazermos mais do que podemos, mais do que devemos, mais do que sequer a saúde nos permite. Já não é teimosia. É vício. Um vício perigoso, aliás como todos os outros). Bom, como tenho de parar de vez em quando (a isso me obrigam) aproveito para falar ou escrever sobre o que gosto.

Chegado ao final de mais um ano (Intenso como todos os outros, pois qualquer professor/a que se preze chega a esta altura do ano sem grande energia…), resta-me refletir sobre a sensibilidade para a diversidade que encontro nos contextos educativos e sociais onde me vou cruzando.

Já nem vou falar de avaliações, nem da avaliação dos alunos/as com necessidades educativas especiais (NEE), pois não quero estragar as férias a ninguém… (entenda-se: mais vale ser feliz que ter razão, caríssimos e em algumas locais esta máxima deve ser rigorosamente cumprida!).

Apenas esclarecer alguns pontos.

A nossa celebração: Poder lutar todos os dias para que estas crianças tenham o direito à sua identidade e que esta sua diversidade seja respeitada na sociedade como uma mais valia (e não como uma maldição) e nisto tudo, poder SER e EXISTIR sem limitações (significa: poderem ver ressaltadas as suas capacidades e não só as suas dificuldades).

Mas para serem e existirem sem limitações, precisamos nós (os outros) de tirar os esqueletos que temos no armário, as pesadas e bafientas representações sobre a deficiência, abandonarmos os rótulos, os estereótipos, as teorias implícitas e raras de que ter Autismo, Síndrome de Down, Dislexia ou outra coisa qualquer significa uma LIMITAÇÃO EXISTENCIAL PERMANENTE, INCAPACIDADE TOTAL, AUSÊNCIA DE COMPETÊNCIA, BLACKOUT TOTAL!

Meus senhores e minhas senhoras, esta forma ortodoxa de ver a população com necesidades especiais está cada vez mais desadequada daquilo que representam hoje estas pessoas. Basta vermos os exemplos que todos os dias se cruzam conosco na sociedade. Que a falta de cultura não seja uma desculpa para castrarmos as potencialidades destas crianças e jovens, pois se forem alvo de uma boa intervenção, poderão ser adultos com futuros brilhantes.

Inúmeros homens e mulheres conseguiram muito mais do que era expectável, em tempos muito mais difíceis do que os atuais. Mais, conseguiram a proeza de eternizar os seus nomes na História, apesar das suas deficiências ou ditas incapacidades. O que os impediu se serem quem são?

Exemplos?

Bill Gates (citado no livro “Thinking in pictures” de Temple Grandin como tendo características autistas – Síndrome de Asperger): diretor da Microsoft e inventor do Windows. Nasceu em 1955 em Seattle (EUA). Gates balançava-se continuamente durante reuniões de negócios e em aviões, não gostava de manter contacto ocular e tinha pouca habilidade social. Isso impediu-o de ter o sucesso que teve?

E mais uns…

Abraham Lincoln, presidente dos EUA (Síndrome de Marfan)
Agatha Christie, escritora (dislexia)
Albert Einstein, cientista (dislexia)
Alexander Graham Bell, inventor – telefone (dislexia)
Alexander Pope, escritor (malformações congênitas)
Andrea Bocelli , cantor (cega)

Andy Warhol (Autismo)
Auguste Renoir, pintor (artrite reumatóide)
Ben Johnson, desportista (dislexia) 
Charles Darwin, cientista (dislexia)
Chris Burke, ator americano (síndrome de Down) 
Christopher Reeve, artista de cinema (tetraplegia)
Cláudio imperador romano (deficiências múltiplas)
Franklin D. Roosevelt, estadista (poliomielite)
Gustave Flaubert, (dislexia)
Hans Christian Andersen, escritor (dislexia)
Harry Belafonte, artista de cinema (dislexia)
Heather Whitestone, miss EUA (deficiência auditiva)
Helen Keller, escritora (cegueira e deficiência auditiva)

Leonardo DaVinci, inventor (dislexia)

Louis Braille, (cegueira)
Ludwig Van Beethoven, compositor (deficiência auditiva)

Nelson Ned, cantor (nanismo)

Oliver Reed, ator inglês (dislexia)

Ray Charles, cantor (cegueira)

Robin Williams, ator (dislexia)

Stevie Wonder, cantor (cegueira)

Thomas A. Edison, inventor (dislexia e deficiência auditiva)

Tom Cruise, artista de cinema (dislexia)

Vincent Van Gogh, pintor (dislexia)

Walt Disney, empresário e desenhista (dislexia)
Whoopy Goldberg, atriz de cinema (dislexia)
Wilma Mankiller, (distrofia muscular)
William Hickling Prescott, historiador (cegueira)
Winston Churchill, estadista (dislexia)
Woodrow Wilson, estadista (dislexia)

Vincent van Gogh (Autismo)

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Chega?Há mais em http://www.crfaster.com.br/gfamosos.htm

Uma sugestão:

Quando não tivermos sensibilidade para reconhecer na diversidade o seu valor, façamos  a única coisa boa e sensata que podemos fazer: estar calados e impedir que as nossas opiniões e atitudes tóxicas  contaminem os pares, os pais e outros colegas, sob a pena do pensamento para a diversidade, o processo de inclusão social e o futuro das nossas crianças entrar num buraco sem fundo.

Tenho dito.

Kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

 

 

Esse autismo que habita em mim…

 

Falar de autismo é hoje para mim um tema doloroso. Aquele que outrora foi a área de entrega e descoberta, de repente foi manchada por uma nuvem negra que dificilmente se apagará. Não, não vou falar do assunto, muito menos escrevê-lo, que o simples teclar também me dói. Carrego comigo uma dor difícil de sarar. Um luto físico efectivo, de quem perdeu um dos seus mestres. Tinha apenas 12 anos. Demasiado cedo. Demasiado trágico. Demasiado doloroso.

E porque hoje se comemora o DIA INTERNACIONAL CONSCIENCIALIZAÇÃO DO AUTISMO, senti este ímpeto de lembrar, o quanto feliz sou, por hoje ser um pouco autista também. Sim, porque com eles me deixei contagiar na motivação, na perseverança, na alegria, na organização e rotina, na transparência e sobretudo na sinceridade.

Assim o eram os meus pequenos mestres. Aqueles que se dizia terem uma perturbação do neuro-desenvolvimento. Aqueles que foram rotulados e catalogados com as castas das uvas. Esses mesmos que me transformaram na pessoa que hoje sou.

Esta gente cheia de luz, que habitam os seus mundo coloridos, cheios de estereotipias e flappings e que nos seus silêncios ruidosos me disseram como eu devia ser todos os dias: feliz e sincera com os meus sentimentos.

Eram felizes os meus mestres. E ainda hoje o são. Ensinaram-me que a diferença é minha. Está na minha cabeça e no meu preconceito. Ensinaram-me que eu é que não os compreendo, porque eles a mim, conhecem-me bem.

Deixo-vos hoje com uma mensagem, já muito conhecida sobre esta MALTA DO BEM. Para que os conheçam e os amem como eu.

 

1- Antes de tudo eu sou uma criançaEu tenho uma Perturbação do Espectro Autista . Eu não sou somente “Autista”. Tal como tu, sou uma pessoa com pensamentos, sentimentos, capacidades e talentos. Entra no meu mundo que eu entrarei no teu e sobretudo percebe que o meu autismo não é igual a mais nenhum, tal como cada criança é sempre diferente da outra. E mesmo apesar deste meu rótulo, sou uma criança como outra qualquer. Lida comigo assim.

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2- Posso ter dificuldades no discurso. Tenta perceber-me e não me apresses. Dá-me pistas comunicativas e visuais. Sou bom na percepção visual: usa esta minha área forte para trabalhares as minhas áreas mais fracas.

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3-  Os meus sentidos, principalmente a audição são muito sensíveis. Muitas pessoas a falar ao mesmo tempo, música alta, barulho intensos, telefones a tocar, crianças a chorar…podem fazem-se sentir desorientado. Se achas que devo habituar-me a estes ambientes, pois são importantes para a minha inclusão na sociedade, então fá-lo com calma. Sem pressas. Usa o meu ritmo e não desistas de mim.

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4- Como já disse o meu sentido principal é o da visão e é nele que deves apostar para me ajudares. Usa primeiro fotos minhas com as minhas rotinas. E depois, assim que as for reconhecendo, usa imagens do Sistema Pictórico de Comunicação (SPC). Assim vou crescendo de patamar em patamar, até aprender a comunicar contigo e com os outros/as. Verás que sou capaz!

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5- Quando falas comigo, não é que eu não te oiça. Muitas vezes não te compreendo. Quando me chamas do outro lado da sala, isto é o que eu oiço: “BBBFFFZZZZSWERSRTDSRDTYFDYT Mário”. Em vez disso, vem falar comigo directamente e diz-me: “Mário, por favor, arruma o jogo. Está na hora de almoçar”. Assim vou entender-te melhor.

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6- Eu sou um “pensador” concreto, posso ter dificuldades em fazer abstracções. Posso  não compreender gírias, piadas, duplas intenções, indirectas ou sarcasmo. Fala comigo diretamente e usa palavras simples, sem duplos sentidos.

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7- Muitas vezes o meu vocabulário é limitado. É muito difícil dizer-te o que quero e o que sinto. Posso estar com fome ou com medo, mas estas palavras estão para além da minha capacidade de expressão. Ajuda-me nisso. Dá-me pistas facilitadoras de comunicação. Constrói comigo cartões para iniciar conversações ou responder às questões que me colocam.

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8- Outras vezes pareço um papagaio e repito as palavras. Na verdade, são palavras que eu memorizei do mundo ao meu redor. A isto chama-se ECOLÁLIA. Nao te preocupes quanto maior for a minha ecolália, mais próximo está o meu discurso espontâneo. Terás apenas de ser paciente.

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9-Pode parecer que não quero brincar, mas muitas vezes, simplesmente não sei como entrar na brincadeira com os meus pares. Através de fotos ou imagens posso aprender a socializar, sobretudo se estiver SEMPRE com os meus colegas. Eles podem também ajudar-me se forem meus amigos tutores. Não me afastes das outras crianças. Crescerei melhor ao lado delas.

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10- Não sei “LER” a expressão facial ou as emoções dos outros. Ensina-me como devo comportar-me. Se eu me rir quando o colega cai do escorrega, não é que eu ache engraçado, é que não sei como agir socialmente. Tu podes ajudar-me também aqui. Trabalha comigo, desde cedo, as emoções. Vais ver que com o tempo aprenderei muita coisa, até a dar e receber afetos. E sim, eu gosto de afetos.

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11- Perco o controlo quando um ou mais dos meus sentidos foi estimulado ao extremo. Se conseguires descobrir o que causa a minha perda de controle, isso poderá ser prevenido ou até evitado.

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12- Vê a minha diferença como uma habilidade e não como uma incapacidade. Talvez seja verdade que eu não seja bom a conversar, mas sabes que não minto, nem julgo outras pessoas. O mesmo não poderás dizer de muita gente que te rodeia.

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13- É verdade que preciso de muitos estímulos para crescer, mas com a tua ajuda e com a minha capacidade de atenção e de concentração no que me interessa e no que me motiva, eu posso ser o próximo Einstein, Mozart ou Van Gogh. Eles também tinham autismo!

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Sem a tua ajuda as minhas hipóteses de alcançar uma vida adulta digna serão pequenas. Com o teu suporte e guia, a possibilidade é maior do que pensas. Tu, meu colega, meu amigo, meu professor ou minha família: todos vocês me podem ajudar a crescer como um cidadão. Prometo: EU VALHO A PENA.

Todos/as juntos por esta causa.

Orgulho da minha gente ❤

Kiss, kiss. Bang, Bang!

celmira

Inclusão?! Ou nos entendemos ou nunca lhe poremos a vista em cima!

Hoje o texto é pesado e sentido de coração. Surge numa fase difícil em que o trabalho e a luta se avolumam e a saúde se mantém frágil e teima em não acompanhar a hiperatividade e as ânsias da mente. Assumo-me como uma “fazedora”, numa sociedade que teima em dividir-se entre os “fazedores” e os “faladores”. Cada vez tenho mais dificuldade em conviver com este tipo de cultura. Respeito muito quem fala com conhecimento de causa e acrescenta por isso, valor às ditas causas.
 
E se é fácil ser “falador”, ser “fazedor” cansa muito, pois muitas são as angústias pelas quais passa em Portugal. Os “fazedores” erram muito, por isso também lhes cai tudo o mundo em cima: críticas, pontapés verbais, levam com tudo. Só não levam com contribuições.
 
E não estou a falar de contribuições monetárias (essas também seriam bem aceites, mas não é o caso). Falo de contribuições sérias; ideias construtivas; sugestões estruturadas baseadas na experiência, nos erros;  indicações de caminhos a seguir.
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Não, isso é pedir demasiado!
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Em Portugal valorizamos os “faladores”, ou seja os refletem muito, escrevem e falam muito sobre o assunto, mas pôr a mão na massa, isso já são “outros trezentos”. Sabem sempre fazer melhor, mas não dizem é como.
 
O texto que me traz hoje aqui é Inclusão. Esse grande monstro paradigmático pelo qual lutam milhões de pessoas todos os dias, porque é um direito! Mas mesmo neste capítulo surge a guerra entre os “fazedores” e os “faladores”.
 
Revisito Paulo Freire, e acrescento, tal como a cidadania, a Inclusão não se escreve apenas, VIVE-SE ou seja FAZ-SE! E neste campo andamos a misturar peras com maçãs. Sobretudo andamos a esquecer-nos que a inclusão apenas se edificará nos consensos, na união, no respeito e na diversidade (até de opiniões).
Não queremos todos/as uma sociedade de participação equitativa, onde todos/as são aceites e respeitados/as naquilo que os/as diferencia dos outros/as? A meu ver esta luta assume quatro frentes, todas diversas mas com esse denominador comum:
 
1.  A Guerra com o poder político/normativo que a nível macrossistémico deve ser permeável aos interesses de todos/as os Cidadãos /ãs;
2. A Guerra com as Instituições;
3. A Guerra com a Sociedade Civil;
4. A Guerra com as Escolas e o Sistema Educativo.
 
Vamos por partes.
 
1. A Guerra com o poder político/normativo
 
Os normativos legais têm cada vez mais de se adequarem às necessidades, interesses e idiossincrasias das populações. Não podem continuar a ser uns quantos treinadores de bancada, catedráticos de gabinete, que o maior contacto que tiveram com a Escola foi quando lá andaram, e agora de longe, decidem o que nela vai acontecer. Pondo em risco, por uma má decisão (ou várias), a vida de milhares de alunos/as e famílias. Cada vez mais as famílias e Associações que as representam devem ser ouvidas! E nisto há consenso entre “fazedores” e “faladores”. Onde me parece não haver consenso é que, não é com guerras que lá vamos! 
E lei devia ser feita pela experiência do “fazedor” e não do “falador”.
 
2. A Guerra contra as Instituições
 
Parece estar na moda dar porrada às Instituições. E eu concordo, mas há que acautelar excepções. Que existem e muitas!
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É verdade, há muito que refletir sobre modelos bacocos e bafientos de organização social, verdadeiros guetos, que já não se enquadram nas politicas sociais atuais, nem tão pouco se adaptam às novas realidades e necessidades da famílias. Com os apoios que recebem, devem no mínimo, estar atentos a novas práticas ou tentativas de caminhar no sentido da participação comunitária da sua população-alvo e da sua Inclusão Social/laboral.
Os CAOs (Centros de Atividades Ocupacionais), são disso um exemplo. Alguns têm recursos, mas continuam a reter os seus “utentes” dentro das paredes das IPSSs. E porque não criar protocolos de integração destes jovens e adultos,  para o desempenho de funções profissionalizantes no tecido empresarial comunitário? 
 
Nós fazemos isso a partir da Associação Leque e não somos CAO. E nem apoios do Estado temos!
 
A Associação Leque tem provado ser e excepção que confirma a regra, por conter medidas de modelo de organização social mais inclusivas. E temos pago a fatura por isso. E como?
Pelo desprezo de instituições homólogas e a antipatia de quem as preside ou defende. E, mais, este tipo de inovação, faz com que as respostas que propomos não se enquadrem nas respostas previstas na lei. Reparem que ate à data nunca fomos apoiados pelo Estado, precisamente por não acreditarmos na institucionalização e por apresentarmos modelos de organização diferenciados e inovadores. 
 
O que seria uma luz no fundo do túnel no caminho da Inclusão, também parece não receber os consensos dos “faladores”, que se dizem defensores de uma nova agenda para as Instituições no Terceiro Sector. Mas defender isto, não implica estar atento ao que de novo se faz por este país fora? Ou o país termina em Coimbra? Não seria de incentivar os “fazedores” que pelo menos TENTAM romper barreiras? Dever devia, mas lá vem a cultura do dizer mal, a falar mais alto.
 
Para melhor perceber esta questão, explico as nossas tentativas “falhadas” no caminho da Inclusão. E são dolorosamente muitas e castrantes:
 
a) ATL INCLUSIVO – Espaço de Ocupação de Tempos Livres, aberto a crianças e jovens com e sem Necessidades Especiais (NE). Quando o dinamizarmos pela primeira vez, tivemos alguma adesão. Acreditei que poderíamos daqui a uns anos ter uma comunidade melhor, já que crianças e jovens brincavam e relacionavam-se com os seus pares num meio o “menos restritivo possível”. Era uma inocente na altura, já que, 2 anos depois, um empresário motivado pelo sucesso das nossas práticas, resolveu tirar a sustentabilidade da a Associação e abriu um ATL. Este sim, o menos restritivo possível, ou seja, onde não se aceitam crianças/jovens com NE.
Resultado: 90% dos pais das crianças ditas “normais” (e este normais tem tantas aspas que se as colocasse todas ficava com limitações de espaço!!!) tiraram os filhos/as do ATL Inclusivo: “Doutora, não é o meu caso, mas os pais/mães dizem que não estavam a gostar das misturas, e a minha filha quer brincar com as amigas e também a vou tirar daqui”.
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Então. Vamos continuar a falar de inclusão? Ou de tentativas de a levar a cabo?
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b) Centro de Turismo Rural Inclusivo
O único do país, recebe crianças e jovens e funciona como um respiro para as famílias, que podem aqui deixar os filhos/as durante uma semana e ir de férias. No primeiro ano, quando começamos a publicitar a iniciativa tivemos inúmeras inscrições.
Resultado: 100% de pais de crianças ditas “normais” (e volto a referir que “este normais” tem tantas aspas que se as colocasse todas ficava com limitações de espaço!!!) desmarcaram a inscrição quando souberam que os filhos/as iram fazer férias com crianças com deficiência.
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É uma questão cultural ou regional? Não, não é, foram pessoas  de todo o país!
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Vamos continuar a falar de inclusão, ou de tentativas de a levar a cabo?
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Os “fazedores” convidam os “faladores” e quem saiba mais do que nós a sugerir, não uma agenda mas soluções reais para um problema real. O que estamos a fazer de errado?Querem continuar a dar porrada em Instituições que tentam ser inclusivas? Ou chegam os exemplos, porque há mais!
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c) Inserção de jovens a partir dos 18 anos na em oficinas profissionalizantes na comunidade:
Conseguimos depois de muita luta ter 3 empresas, em mais de 30 do concelho, que aceitaram que os nossos frequentadores fossem estagiar nas suas instalações, para ganharem competências profissionalizantes (cabeceiro, oficina de estética, mecânico). Com o objetivo de no futuro inseri-los no mercado de trabalho. Queríamos mais, sim claro, mas  a resposta é “Não”! “Sabem, as pessoas não querem misturas”. 
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E então querem continuar?! A mim chega-me e esgota-me, espero que também baste e esgote os “faladores”!
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3. A Guerra com a Sociedade Civil
 
Afinal é aqui que teremos de concentrar a nossa atenção. Estes são os aliados/as que precisamos. Os pais/mães “não querem misturas”, os donos/as de empresas “não querem misturas”, afinal onde estamos a errar? E sim, já fizemos formações, reuniões, conferências, ações de sensibilização, envolvimento comunitários, provas de capacitação, mostramos que estas pessoas são válidas e um contributo para a sociedade. Continuamos a ouvir NÃO! Mas entrar em guerra de nada nos serve! Que dirão os “faladores” sobre isto?
 
 
4. A Guerra com Escolas e o Sistema Educativo
 
Tenho tido a sorte de estar no terreno, nas escolas, na formação de professores, no Terceiro Sector e o quadro é o mesmo. “Fazedores” e “faladores” em confronto! E meus amigos e minhas amigas, assim nunca chegaremos ao caminho da Inclusão!
Há uma grande luta no ar, luta que defendo desde de que me conheço como profissional. E não, não sou treinadora de bancada, sou a pessoa que está no terreno e sei. Preferia não saber, mas sei como são tratados as crianças e jovens com NE, em algumas Escolas por esse país fora.
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Sei, não porque me contaram, sei porque vi e vejo. Sei porque me parte o coração. Sei porque tive de as defender e lutar por eles/as para poder dormir com a consciência tranquila à noite. Por isso me dói tanto quando sugerem que o que faço não é Inclusão.
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Caros pais e mães, se a Escola fizer bem o seu papel, as Instituições que não se rejam por novas práticas fecharão portas. E assim será. As Instituições serão o menor do vosso (nosso) problema. Ninguém obriga os pais a colocarem os filhos nas instituições, ou obriga? Por isso concentremos a nossa atenção aqui: Na Escolaridade Obrigatória! O que já vivi e vi nas Escolas deixará qualquer um horrorizado. Frases como:
 
“Eu não quero aquela coisa na minha sala”
 
” Estes seres não deviam estar aqui”
 
” Eu até tento, mas repugna-me”
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Ecoam por ALGUMAS reuniões  e ALGUMAS salas de professores/as.
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Estas expressões, mostram bem o que pensam ALGUNS docentes, quais as suas representações sobre as NE. E estas verborreias são ditas sem censura, porque quem as diz, não se retrai nem um pouco de as dizer! Mas a estes pelos menos ninguém os crítica, sabem porquê? Porque são os primeiros a dar palmadinhas nas costas dos pais/mães e diretores/as. São consensuais. Toda a gente gosta deles, simplesmente porque andam ao som da corrente e não dão pedradas no charco. Nem são “fazedores” nem “faladores”, mas são estes que avaliam e são estes os que são ouvidos pelos “faladores”.
Salvaguardo no entanto, os BONS professores/as que existem por esse Portugal imenso. Lutadores e nobres, porque se importam, mesmo quando são abalroados! 
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Meus amigos/as chega!
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Ou remamos todos para o mesmo lado, ou à Inclusão, nunca lhe poremos a vista em cima! Podem mudar as leis, pode mudar o mundo, mas na verdade o que tem de mudar são as mentalidades!
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E só a convergência de opiniões consegue esse feito!
 
A Inclusão não se escreve, faz-se, e faz-se de tentativa e erro, todos os dias. E quem sequer tenta, devia ter o todo o nosso crédito, porque são essas pessoas “fazedoras” que tal como os vossos filhos/as, são alvos fáceis de exclusão! Mas também serão essas pessoas que farão mudar o mundo!
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 Desculpem a frontalidade, mas pensem nisso!
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Kiss, kiss!  Bang, Bang!
celmira

Lamento informar, mas a pessoa normal não existe!

 

Meus amigos e minhas amigas, a normalidade é uma construção social, logo a pessoal normal não existe. Ou pelo menos existe apenas para nós, porque para o vizinho do lado, o normal pode ser absolutamente repugnante.

Afinal, o que é normal?

A ideia de normalidade é muito mais uma questão de matemática estatística, um rótulo que pouco serve para definir quem quer que seja. O atual paradigma científico em que vivemos impõe-nos rótulos, classificações, categorizações, aos quais nos curvamos em plena carneiragem cega de obediência, sem consciência  do lixo tóxico que este rótulo carrega, em nós e nos outros/as.

Afinal, o que é normal? Qual é a pessoa normal? Parece consensual que a pessoa normal é aquela que resulta da convenção de uma maioria (ser normal quer dizer que se está dentro da média), mas a maioria não depende do  contexto de onde se insere ou de onde se é oriundo? Afinal, aqui, no Paquistão ou na China, qual é a pessoa normal? A que usa mini-saia ou a que usa Burka? A que gosta de carne ou a que é vegan? A que come insectos ou alheiras? A que tem uma família convencional, monoparental ou pluriparental? O homem que respeita a mulher ou o que a maltrata? 

Afinal, a pessoa normal onde está? 

E os pais/mães normais, quais são? Os que perante uma criança de hiperativa a enchem de medicamentos ou os que a encaminham para atividades desportivas? 

No contexto da Escola quem são os aluno/as normais? Os/As que tiram boas notas? (estes são a minoria, logo estes não são os normais, pois convencionado está que a norma advêm da maioria, certo?!) Isto se falarmos em contextos convencionais, mas outros existem (os ditos problemáticos), onde a maioria tira notas abaixo da média. O normal neste contexto será ser mau aluno/a?

E  já que falamos da Escola, quais são os professores normais? Os que acreditam nos guetos ou os que acreditam e operacionalizam a inclusão? Lamento informar mas a maioria ainda acredita na segregação (desculpem a sinceridade e ressalvando os milhares de bons professores promotores de atitudes inclusivas, mas que são ainda assim uma minoria). Normal é não acreditar na inclusão? É assim que dita a maioria? Será isto normal?

Será normal excluir a criança ou jovem com limitações intelectuais e com dificuldades de aprendizagem? Ou o normal é descobrir a suas dificuldades, interesses e motivações e introduzir novos métodos e estratégias mais adequados à sua situação?

 Eu não acredito na morma, acredito sim na normalização, que é bem diferente!

Normalizar não significa tornar normal, mas sim, proporcionar às pessoas (com e sem necessidades especiais) condições equitativas de desenvolvimento, interação, educação, emprego e experiência social (Nirjke, 1969).

Wolfensberger (1985) vai mais longe e introduz o conceito de valorização da função social,  ou seja, normalizar é tornar as pessoas (com necessidades especiais) parte da comunidade, onde poderão desempenhar papéis sociais válidos, e que tenham acesso aos mesmos direitos e possam exercer os seus deveres e responsabilidades na relação e proximidade com os seus concidadãos.

O que me parece normal é perceber que estas pessoas apenas precisam de receber apoios, para que possam desempenhar essas mesmas funções sociais e de vida.

A estas pessoas devem ser facultada formação e oportunidades de desenvolvimento, junto de pessoas sem essas necessidades. Se é normal pensar assim, não sei…?  (bem, até sei e sei que que não é), mas eu gostava que fosse normal. Seja lá o que isso signifique, mas pelo menos que fosse levado a cabo pela maioria!

Concorda?

 

Kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

 
Foto: jayroeder.com

Tenho o direito de ser o João ou o Zé e não apenas o autista ou o surdo.

 

Em forma de pedido para 2015 vou explicar porque não defendo o uso do termo “deficiente” em pessoas com algum tipo de deficiência, incapacidade, limitação ou necessidade. Vezes demais, o oiço, até em contexto familiar, onde, no meu ponto de vista, devia ser o primeiro a suprimir rótulos diferenciadores. Eu prefiro chamar-lhe Pessoas com Necessidades Especiais (PcNE), porque necessidades temos todos, e especiais porque são nossas e portanto, únicas.

Remonta a 1994 a chamada de atenção da UNESCO relativamente a estas questões, reforçando que estas pessoas têm sido, por um tempo demasiado longo marcadas por uma sociedade que acentua mais os seus limites do que as suas potencialidades. 

Infelizmente as representações sociais relativas a pessoas com diversidade funcional, são ainda muito redutoras. E pioram, sempre e cada vez que as apelidamos de “deficientes”, pois quase de imediato se instala a rotulagem e carrega-se o estigma.

Quer queiramos ou não, a forma como nos dirigimos às pessoas, seja em ambiente familiar ou social, identificando-as pelo problema ou patologia (o surdo, o cego, …), influencia a criação de representações e transporta uma conotação (quase sempre) negativa, que facilmente se traduz em baixas expectativas sociais.

Quando usarmos o termo “deficiente” estamos a valorizar mais o problema do que a pessoa, pois, se nos detivermos a analisar o seu significado no dicionário, percebemos que deficiente é sinónimo de “falho, imperfeito, incompleto”. Conhecem alguém perfeito? Eu não!!!

Se pensarmos bem, ouvimos quase diariamente todo o tipo de expressões redutoras:

– Acentuação baseada nas limitações: os incapazes, deficientes, aleijados …;

– Confusão das manifestações com a problemática: sofre de…, padece de…;

– Indução de sentimentos de pena: coitadinho…;

– Utilização de expressões agressivas: mongolóide, atrasado, tonto, …;

– Não menção à idade referindo-se a estas pessoas como se de um grupo homogéneo se tratasse: os meninos, bebés, …

No sentido de promovermos uma verdadeira inclusão, devemos ser capazes de analisar a nossa própria linguagem e perceber como ela carrega uma visão negativa e reducionista das PcNE. Caminhamos no sentido de dar enfoque à PESSOA que é tem uma incapacidade e que tem de forma natural, os mesmos direitos e deveres dos seus concidadãos.

Convivo muitas vezes, com a revolta de pais/mães que foram e viram os filhos/as serem vítimas de discriminação na sociedade que os devia acolher, mas onde as representações e imagens mentais ainda a primar pela lógica da homogeneidade, valorizam o que é igual e comum e colocam de lado a criança dita de diferente.

A mudança deste paradigma começa connosco. Começa na família e arrasta-se pela Escola, Centros de Reabilitação, Clínicas, Parques de diversão, Supermercados, Jardins etc. Vejam a diferença:

“O meu filho tem autismo e tem necessidades especiais de educação.”

ou

“O meu filho é deficiente.”

Sinceramente, qual das duas frases transporta uma imagem positiva e estruturante  da incapacidade/deficiência, aos ouvidos de colegas, professores, amigos ou terapeutas? Não se trata de mascarar a problemática! Apenas permitir uma segunda oportunidade, um segundo olhar à pessoa e não apenas à deficiência.

José Manuel Alves assume-se como cego e foi meu professor na Escola Superior de Educação de Bragança, onde sempre defendeu que todos devemos ser capazes, ou ter pelo menos o direito, de realizar os nossos projetos de vida e isto só acontece quando o indivíduo é capaz de, através da interação com os seus iguais, realizar a sua diferença.

São esses valores que vale a pena defender.

Não sei o que se passa desse lado, mas eu continuo a defender que as limitações não definem a essência humana, todos somos diferentes e é essa diversidade que nos enriquece. Todos temos direito à identidade e à diferença (Rodrigues, 2002). As crianças/jovens/adultos com NE também. Têm o direito de ser o Francisco, o João, a Maria e não apenas o autista, o cego ou o surdo.

A mensagem que quero fazer passar é que, mais importante do que denunciar o que as PcNE não podem fazer, ou conjecturar sobre o que as diferencia dos outros, é exaltar as suas potencialidades como cidadãos, numa sociedade livre e democrática. Além de que, caracterizá-los pelas suas dificuldades, apesar de ser terrivelmente injusto, bloqueia a possibilidade de acesso a representações positivas que os orientem no processo de desenvolvimento numa perspectiva de educação para a cidadania. E se o fizerem, o seu processo de desenvolvimento e inclusão social pode estar seriamente comprometido.

A todos nós cabe lutar contra o preconceito. Para tal, é absolutamente necessário respeitar os direitos e deveres de cada um. E as PcNE apenas necessitam que se lhes proporcionem condições de desenvolvimento, interação, educação e experiências sociais idênticas aos seus pares. Otimizar a sua funcionalidade!

Por último, as famílias devem recordar que os filhos/as têm direitos e estão consagrados na legislação portuguesa, onde o Estado se compromete a “tomar medidas que promovam, protejam e garantam o gozo pleno e igual de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais por parte de todas as pessoas com deficiência e se promova o respeito pela sua dignidade inerente”.

Meus amigos/as estas pessoas têm sobretudo o direito à sua identidade.

Que 2015 nos traga mais consciência.

 

 

 

kiss, kiss. Bang, bang!

celmira

 

 

Fonte: Livro Escola de Pais. NEE _ Guia de Formação Parental (Celmira C.M. Macedo, 2012, Edições Pedago)

Porque luta por pessoas com deficiência? Tem alguém na família?

 

Esta é seguramente a mais frequente de todas as questões que me tem colocado nos últimos anos. São centenas, não estou a falar-se meia dúzia de pessoas a quem, de alguma forma, intriga esta minha opção de vida.

Para dizer a verdade, a mim intriga-me o facto de ser motivo de intriga para tanta gente, mas esta será uma das muitas questões que não vou conseguir clarificar, e acreditem que já muitas vezes me questionei a respeito. 

A resposta que dou é honesta. Sou só e apenas, uma simples professora que há muitos anos começou a trabalhar com estas pessoas. Cortava-me o coração vê-las sempre tão sozinhas (a elas e às famílias), sem ninguém que as defendesse e quis ser essa pessoa.
hhhh
E quis ser essa pessoa porque, há muitos anos também eu fiz parte dessa minoria, cheia de rótulos e baixas expectativas, só porque vinha de outro país. De outra cultura. Vir de Angola naquela altura trouxe-me alguns amargos de boca… Enfim, digamos que sei bem o que é ser  discriminado, sei o que é pertencer a uma minoria e sei o que é ter que trabalhar o dobro para provar que valemos tanto como os outros/as. Na altura, também gostava de ter tido uma pessoa que me defendesse…
 hhhh
Por isso quis ser essa pessoa. A que defende, a que leva a bandeira (e os tiros às vezes). Não o digo por arrogância ou pretensão. Digo-o com orgulho. Orgulho de todas as donas Leopoldinas na minha vida, de todas as Vânias, Carlos, Martins e Fábios. Todos me ensinaram mais do que lhes ensinei. Deram muito mais que lhes dei e sobretudo transformaram-me numa pessoa completa. Até os conhecer era apenas meia pessoa. Como tantas meias pessoas que conheço.
 
hhhh
Portanto…o motivo pelo qual faço isto: simplesmente porque me apetece e porque gosto de o fazer. Para mim, para mais ninguém! 
Faço-o motivada pelo egoísmo de me fazer sentir bem.
Faço-o com a certeza de que, cada vitória para eles duplica o meu estado de alma. Sem falsas modéstias ou expectativas.
 
Faço-o por caturrice, por loucura, por vontade, não sei! E o melhor é que gosto. 
 
hhhh
Defendi, defendo e defendei. Lutei, luto e lutarei pelas donas Leopoldinas, Vânias, Carlos, Martins e Fábios, simplesmente porque me apetece. E não, não precisam de ser da minha família para lhes ter este amor todo. Basta SER!
 f
Estão a ver: afinal a razão é simples! 😉
 
hhhh
Parece-me um bom motivo não acham? 
 
 
hhhh
Kiss. kiss. Bang, Bang!
hhhh
celmira

Chamo-me Luís não sou só “o deficiente”.

 

O Luís (nome fictício) chegou à escola. “Quem é o Luís”? – Perguntei.  A unica resposta que recebi foi: ” É o deficiente, tem Paralisia Cerebral”.

Na aldeia todos se compadeciam do seu “Karma”, o Luís era protegido, tudo lhe era facilitado, nada era negado. Numa sociedade rural fortemente enraizada pelo pensamento tipológico, a educação desta criança como futuro cidadão estava minada. A marca que transportava, estigmatizada na sua aura, era a porta de entrada numa sociedade falsamente rica em valores de solidariedade e compaixão.

As limitações do Luís valiam-lhe a definição da sua pessoa. Quem era o Luís? Que competências construiria? O que poderia vir a alcançar? O Luís não tinha nome, era apenas “o deficiente”.

Esta marca acarretava já consequências nefastas para o seu processo de inclusão. As expectativas sociais eram praticamente nulas.

Ao Luis foi-lhe “inocentemente” amputado o espaço de manobra, negado o acesso a um papel social onde pudesse mostrar as suas capacidades, foi-lhe negada a possibilidade de aceder à igualdade de oportunidades face aos colegas.

O processo de rotulagem estava a surtir efeitos irreversíveis. Eu estava incrédula. Como poderia afirmar-me como profissional naquele contexto?

Acreditava que as limitações não definiam a essência humana, e que a diferença do Luís era igual à diferença do João, do Pedro, da Ana. Ser o Luís era apenas a diversidade mais marcante. Todos/as na sala eram diferentes.

Acreditava que o Luís tinha chegado à escola com a sua “bagagem” e que nela trazia as suas crenças, a sua visão do mundo, a sua cultura. Tinha capacidades, interesses e motivações particulares e daí partiria para a sua construção como pessoa.

Eu nunca temi a diferença, não sei como, mas sempre soube conviver com ela.

– “Coitado do rapaz, vejam bem que com esta professora, tem que arrumar e comer sozinho”. Murmurava-se ali, sem se entender a minha estratégia de autonomia.

Eu tratava-o como mais uma criança na sala, pretendia proporcionar-lhe condições de desenvolvimento, interação, educação e experiências sociais idênticas aos colegas. Pretendia que ele fosse parte integrante do grupo, e que aí desempenhasse papéis sociais válidos, que fosse respeitado pelas suas capacidades e não paparicado pela sua condição.

Utopicamente pretendia “educar” todos o que os rodeavam, na esperança de operar uma profunda transformação nesta sociedade.

Sabia que ia encontrar obstáculos, mas nunca desisti.

Continuo a saber que muitas vezes se atribui maior prioridade à escolarização, face à solidariedade. Aos resultados académicos, em detrimento do desenvolvimento social e da personalidade. 

Estou consciente do mito de que a presença destas crianças nas salas “impedem” o progresso das outras crianças.

Tenho a dolorosa consciência que estes mitos e crenças infundadas, impedem a extensão e profundidade da reforma que quero ajudar a construir e na qual acredito.

Não desisto.

Acredito sempre que aos “Luíses” deve ser respeitado o ritmo de aprendizagem.

Nem sempre esta forma de estar na vida me valeu a simpatia pelo meu trabalho, mas acreditarei até ao fim na individualidade destas crianças e numa educação adaptada às suas possibilidades. E por ela irei lutar até que faltem as forças.

Acredito na educação para a diferença a partir de qualquer contexto educativo, mas tenho dúvidas se o sistema educativo e quem o constitui tem a mesma vontade.

Nunca deixarei de acreditar que as pessoas constroem melhor os seus conhecimentos e a sua identidade em contacto com os pares. Assim se viverá a cidadania e a inclusão (as verdadeiras), onde estas crianças serão futuros cidadãos numa sociedade mais justa.

E assim continuarei a acreditar, e a lutar …sempre.

Por um futuro melhor e mais justo para os “Luíses”.

 

Kiss. kiss. Bang, Bang!

celmira